Luchino Visconti nasceu há 100 anos
Aristocrata e marxista, mestre do neo-realismo e do melodrama, o italiano Luchino Visconti, cujo centenário do nascimento se assinala quinta-feira, ficou para a história como um dos maiores realizadores de cinema do século XX.
Em Portugal, a data será comemorada com um ciclo de cinema do ABC Cine-Clube de Lisboa, promovido em parceria com A Voz do Operário, durante o qual serão exibidos, entre quinta-feira e 30 de Novembro, no Auditório João Hogan, em Lisboa, alguns dos mais famosos filmes do cineasta, como "Morte em Veneza" (1971), "Sentimento" (1954), "A Terra Treme" (1948), "Obsessão" (1943), "O Leopardo" (1963) e "Rocco e os seus Irmãos" (1960).
O Conde Don Luchino Visconti di Modrone nasceu em Milão em 1906, numa das mais influentes famílias nobres de Itália.
O seu pai, o Duque di Modrone, era um homem conhecido pelas suas casas extravagantes, um famoso bissexual, amante da rainha de Itália.
A sua mãe pertencia a uma família muito rica com negócios no ramo da farmácia e cosmética.
Enquanto jovem, Visconti deambulou entre a pintura e o coleccionismo, mas a sua grande paixão foi a criação de cavalos puro- sangue para corridas, uma paixão que lhe ficou do serviço militar, cumprido em 1926 na cavalaria.
Devido à fortuna da família, viajou bastante durante os anos seguintes e uma das suas viagens levou-o, em 1936, a Paris, onde conheceu a estilista francesa de renome internacional Coco Chanel, que o apresentou ao cineasta Jean Renoir.
Aos 30 anos, tornou-se assistente de realização de Renoir em "Um Piquenique no Campo" e depois em "O Mundo do Vício", antes de, na sequência de conversas com o círculo deste, composto por gente de esquerda, se tornar um fervoroso marxista, apesar da origem nobre, o que lhe valeria a alcunha de "conde vermelho", pela qual ficou conhecido até ao fim da vida.
Em 1937, passou por Hollywood, que não lhe interessou particularmente, e regressou, em 1940, a Itália, onde participou no filme de Renoir "La Tosca", terminando-o com a ajuda do assistente de realização do cineasta, que regressou a França ao eclodir a Segunda Guerra Mundial.
A partir de 1940, ligou-se ao grupo do jornal "Cinema" e resolveu fazer os seus próprios filmes, tendo vendido algumas jóias de família para financiar o primeiro, "Obsessão" (1943).
O filme era uma adaptação não autorizada do romance do norte- americano James M. Cain "O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes", que chocou a Itália fascista e teve problemas com a censura devido à temática ousada - uma mulher que planeia com o amante o assassínio do marido - mas que se saldou por um grande sucesso nas salas de cinema do país.
Além da polémica, o filme introduziu os principais preceitos do movimento neo-realista que começaria em 1945 com "Roma, Cidade Aberta", de Roberto Rossellini.
No final da Segunda Guerra Mundial, Visconti autorizou a utilização do seu palácio como centro de comando secreto por membros da resistência comunista e participou em acções armadas contra os ocupantes alemães, actividades que levaram, em 1944, à sua detenção pela Gestapo durante um curto período.
Desse tempo na prisão, vingou-se filmando a execução do chefe da polícia política italiana, Pietro Caruso, para o documentário que realizou em 1945, "Dias de Glória".
O Partido Comunista Italiano encarregou-o de fazer uma série de três filmes sobre pescadores, mineiros e camponeses da Sicília, mas Visconti acabou por realizar apenas um, "A Terra Treme" (1948), a sua segunda longa-metragem, que constituiu um dos pilares da estética neo- realista, considerado revolucionário por ter um elenco totalmente amador composto por verdadeiros pescadores.
Continuando a seguir escrupulosamente os princípios do movimento, realizou "Belíssima" (1951), uma crítica feroz à ilusão do estrelato vendida pelo cinema.
Em 1954, o cineasta foi duramente criticado por romper com o ideário neo-realista ao fazer o épico "Sentimento", baseado num romance de Camilo Boito, filme com que iniciou uma nova fase da sua carreira, marcada por um estilo intimista e melodramático, com forte pendor para a decadência.
Em 1950, adaptou Dostoievski, rodando "Noites Brancas", e uma década mais tarde, em 1960, realizou talvez a sua obra-prima, "Rocco e os Seus Irmãos", uma longa-metragem sobre a migração italiana que lhe valeu o Grande Prémio do Júri do Festival de Cinema de Veneza.
Tal como "A Terra Treme", este filme documentava as dificuldades das classes trabalhadoras e ambos foram, por isso, censurados pelos sucessivos governos de direita que dirigiram a Itália no pós-guerra.
A partir da década de 60, os filmes de Visconti tornaram-se mais pessoais, sendo talvez as suas obras mais importantes "O Leopardo", de 1963, adaptação do romance homónimo de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, editado em 1958, sobre o declínio da aristocracia italiana, e "Morte em Veneza", de 1971, baseado no livro de Thomas Mann, um dos seus escritores preferidos.
Embora fosse uma figura altiva e pouco acessível (a actriz Clara Calamai descreveu-o como "um senhor medieval com chicote"), Visconti obteve, mesmo assim, o reconhecimento dos actores que dirigiu.
Por exemplo, o actor norte-americano Burt Lancaster, que foi bastante maltratado pelo cineasta durante a rodagem de "O Leopardo", afirmou, numa entrevista, que ele tinha sido "o melhor realizador" com quem até então trabalhara, "um sonho para qualquer actor".
Luchino Visconti encenou também ao longo da vida várias peças de teatro, entre as quais se contam obras de Jean Cocteau e Tennessee Williams, tendo-se tornado tão famoso como encenador de ópera como era como cineasta. Um trabalho pelo qual obteve também o reconhecimento de figuras como a diva Maria Callas, que declarou que fora Visconti quem a ensinara a representar.
Apesar de se assumir claramente como bissexual, como o pai, há poucas personagens explicitamente homossexuais nos seus filmes, embora haja muitas vezes um erotismo encapotado de natureza homossexual.
Escolheu quase sempre actores atraentes, como Alain Delon, manteve um romance com Franco Zeffirelli (na altura, seu assistente de realização mas que viria também a tornar-se cineasta), e alimentou no fim da vida uma obsessão pelo actor austríaco Helmut Berger, que dirigiu nos filmes "A Queda dos Deuses" (1969), "Ludwig" (1972) e "Retrato de uma Família no Inferno" (1974).
O vício do tabaco - fumava cerca de 120 cigarros por dia - viria a provocar-lhe um ataque cardíaco que lhe debilitou bastante a saúde mas não o impediu de, numa cadeira de rodas, filmar e controlar todas as etapas de produção de "Retrato de uma Família no Inferno" e "O Inocente" (1976).
A 17 de Março de 1976, Luchino Visconti morreu sem concretizar o seu grande sonho: transpor para o grande ecrã a sua leitura do romance "Em Busca do Tempo Perdido", de Marcel Proust. Entrou, no entanto, para a galeria dos notáveis da história do cinema.