"Lusa - a matriz portuguesa" mostra no Rio de Janeiro origem da miscigenação brasileira

A exposição "Lusa - a matriz portuguesa", patente ao público a partir de quinta-feira no Rio de Janeiro, mostrará a origem da miscigenação do povo brasileiro, disse hoje o produtor do evento.

© 2007 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A. /

Marcello Dantas salientou à agência Lusa que a exposição mostrará como a cultura portuguesa contribuiu para a formação da nacionalidade brasileira a partir da chegada da família real, em 1808.

"Foi a partir desse contributo que se formou uma identidade diferente, resultado da miscigenação entre povos, no Brasil, diferente de sociedades colonizadas pelos espanhóis, por exemplo, até hoje altamente segregadas", afirmou.

A mostra inclui 147 peças de 38 instituições portugueses, algumas das quais nunca atravessaram o Atlântico e outras nunca deixaram Portugal.

Entre o acervo da exposição, estão cerca de 40 peças consideradas verdadeiros tesouros portugueses, como um guerreiro em granito e um colar de ouro celtas.

A mostra decorrerá no Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB), um dos principais espaços de exposição do Rio de Janeiro, até 10 de Fevereiro de 2008, e conta com o apoio do Ministério da Cultura de Portugal.

Depois do Rio de Janeiro, a exposição seguirá para Brasília, onde ficará patente ao público de 25 de Fevereiro a Abril, avançou Marcelo Dantas, responsável pela idealização e o desenho de montagem da mostra.

Um dos principais objectivos da exposição é assinalar o início das comemorações dos 200 anos da chegada da família real portuguesa ao Brasil, comemorados no próximo ano.

A data da sua inauguração antecede em pouco mais de um mês o bicentenário do início da viagem de D.João VI ao Brasil, a 27 de Novembro de 1807, com a chegada ao Rio de Janeiro, a 07 de Março de 1808, depois de uma breve passagem por Salvador da Baía.

O acervo da exposição foi desembarcado quinta-feira, no Rio de Janeiro, e já foi levado para o local da mostra, no centro da cidade.

"Evitamos criar uma exposição centrada na figura de D. João VI, até porque a fuga de Portugal foi um momento triste, numa conjuntura política desfavorável, com a posterior invasão pelas tropas de Napoleão", disse.

"Queremos nesta mostra celebrar a identidade, a raiz da nacionalidade brasileira, ao contar a história de povos e não de realezas, afinal 2008 será o momento de discutir a relação entre Brasil e Portugal", sublinhou.

Marcelo Dantas ressaltou que o Rio de Janeiro é a mais portuguesa das cidades brasileiras, e que a exposição decorrerá a poucos metros do local onde D. João VI desembarcou, em 1808, transformando-se no único rei europeu a visitar a América em mais de quatro séculos.

"Lusa - a matriz portuguesa" é resultado de dois anos de preparação, entre diversos especialistas, entidades públicas e privadas, como a Biblioteca Nacional, a Torre do Tombo e a Fundação Calouste Gulbenkian, e nela trabalharam nove curadores.

A ideia de realizar a exposição nasceu durante as investigações posteriores à criação do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, em Março de 2006, do qual Marcelo Dantas foi director artístico.

A exposição insere-se igualmente numa trilogia sobre formação étnica brasileira, criada pelo CCBB, precedidas pelas mostras "Arte da África" e "Antes - Histórias da Pré-História".

"Arte da África" registou um recorde de visitantes de uma exposição já realizada no Brasil, com mais de um milhão de pessoas, em 2004.

"Lusa - a matriz portuguesa" pretende investigar o elemento europeu, especificamente o português, e a sua riquíssima e diversa matriz, fundamental na formação do Brasil, salientou o produtor.

A mostra revela as origens de Portugal, desde a pré-história até 1500, os povos antigos, o domínio romano, as presenças cristã, judaica e árabe, e a formação das fronteiras até ao apogeu da era dos descobrimentos marítimos.

A exposição contém peças em mármore, pedra, ouro, azulejo, pintura, escultura, achados arqueológicos e mapas, e é acompanhada por componentes multimédia sobre a formação da língua portuguesa, a arquitectura e a paisagem portuguesa.

O Museu Nacional de Arqueologia enviou o maior número de peças, dentre elas algumas do período pré-histórico, como um esqueleto humano, um punhal, braceletes e fragmentos de armas.

Uma escultura da Santíssima Trindade em pedra, uma pintura da Oficina de Vasco Fernandes (1530-1540) e uma escultura da Virgem com o Menino Jesus (1450-1475) são algumas das obras cedidas pelo Museu Nacional de Arte Antiga.

A lista inclui ainda uma pilastra visigótica do Museu Monográfico de Conímbriga, um capitel Moçárabe do Museu de Alberto Sampaio e um painel de 18 azulejos do período medieval cristão do Museu Nacional do Azulejo.

Entre os objectos, estão também um guerreiro celta de granito (provavelmente do século I A.C), com quase dois metros de altura e uma tonelada de peso, e um torques, um colar de ouro maciço, em forma de ferradura, usado por esses guerreiros.

Entre as curiosidades está o Manifestis Probatum, a Bula Papal de 1179, que reconhece Portugal como reino e D. Afonso Henriques como seu primeiro rei.

O documento é um fac-símile, do acervo da Torre do Tombo, que é tratado pela instituição com cuidados de original.

A consolidação do reino português estabeleceu-se durante o reinado D. Dinis (1261-1325), filho de D. Afonso III, através do Tratado de Alcanizes, celebrado com Castela a 12 de Setembro de 1297, com a determinação das fronteiras, até hoje vigentes.

Entre as instituições portuguesas que cederam parte de seus acervos para a mostra, estão ainda o Museu Islâmico de Mértola, o Museu da Marinha, o Museu Arqueológico de Serpa, o Museu Arqueológico de Silves, o Museu Nacional Machado de Castro e o Paço dos Duques de Bragança.

A exposição ocupará todas as instalações do CCCB, um dos mais importantes espaços culturais do Rio de Janeiro, com destaque para uma instalação especialmente criada para o evento.

Construída no centro da rotunda do CCBB, a instalação foi dedicada a uma das únicas palavras que permaneceram na língua desde o período mais ancestral, anterior à chegada dos romanos: cama.

Uma gigantesca cama sonora de 32 metros quadrados permitirá que os visitantes, deitados nela, escutem as diversas sonoridades linguísticas que formam o universo da língua portuguesa, como o árabe, o latim, as raízes indo-europeias, e palavras indígenas do Brasil e africanas.

No primeiro andar do CCBB, vão ficar as salas históricas, abordando os períodos e influências religiosas: Pré-história, Romano, Alta Idade Média, Islâmico, Cristão e Judeu.

Haverá ainda um ambiente, o Pátio, que servirá como sala para consulta de referências literárias e musicais, assim como espaço educativo e painel com linha do tempo organizada.

No segundo andar, estarão as salas temáticas, que abordam assuntos centrais na história portuguesa: as Descobertas Científicas, os Descobrimentos e a importância do Comércio e da Língua.

No espaço dedicado à Língua e ao Comércio, grandes estantes cobrirão três paredes, contendo potes de vidro com produtos, materiais, alimentos e especiarias que marcaram a história do comércio de Portugal.

Na quarta parede, outra estante conterá cópias de livros fundamentais para formação linguística e cultural, como os "Lusíadas" e "A formação do Estado de Portugal", primeiro documento escrito em português, podendo ser livremente consultados.

Outra sala apresentará vídeos com depoimentos de historiadores, arqueólogos e linguistas sobre a formação de Portugal e sua matriz miscigenada.

A programação da exposição inclui igualmente palestras sobre "Os Povos Matrizes de Portugal" e "Comércio, Religião e Expansão".

Em Novembro deste ano, será lançado um catálogo bilingue (português e inglês) sobre a exposição, com textos de nove investigadores e fotografias das obras expostas.

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