Manuel Figueira e o caderno de onde saem quadros
**Fernando Peixeiro, da Agência Lusa**
Mindelo, 26 Jul (Lusa) - Manuel Figueira, um dos mais conhecidos pintores cabo-verdianos, tem convites para expor em Lisboa mas prefere a pacatez do Mindelo, na ilha de S. Vicente, onde tudo o inspira.
"Na rua, na praia de banho, todos os sítios para mim são assuntos, não tenho limites em relação aos temas. Pode ser um café, uma conversa que ouvi, uma frase de alguém, uma discussão", diz à Lusa no seu atelier, repleto de telas, algumas com histórias, como diz, "amargas".
Em Portugal, de 1960 a 1975, foi onde estudou Belas Artes, deu aulas de desenho e pintou, logo em 1964, uma tela a que chamou "Motim", ainda hoje uma das suas favoritas.
Teimou em chamar "Motim" à pintura, que representa uma luta envolvendo muitas pessoas, e isso valeu-lhe "uns amargos de boca". Porque era, conta, de Cabo Verde e o PAIGC (Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde) já tinha iniciado a luta armada.
Outros tempos, de revolucionário e inconformado. Hoje, Manuel Figueira é sobretudo, como diz, um observador: "Dedico-me ao meu trabalho artístico e analiso o que se passa na sociedade, estou mais como observador".
Natural de S. Vicente, conheceu todas as ilhas do arquipélago, recolhendo histórias populares e outras manifestações culturais, e diz hoje que nunca se adaptou a Portugal, embora tenha sido lá que conheceu a mulher com quem casou.
Hoje reformado, pinta devagar, usando muitas vezes a sátira, "do humor negro ao que não ofende ninguém", como na tela "Casamente dum fidja-féma dum nova-rica de Sãocente", no qual parodia os comportamentos das pessoas que enriquecem rapidamente na ilha.
O "Ti Lobo" é outro exemplo, um quadro de um homem "comilão, irresponsável, que só se interessa por ele mesmo", inspirado "numa determinada pessoa" de S. Vicente, como o hábito que os pescadores têm de fazer da rua casa-de-banho lhe inspirou outra pintura, muito explícita.
Nos últimos tempos, conta, começou também a dedicar-se a paisagens áridas da ilha, explicando: "Não faço paisagens directas, reinvento a partir de apontamentos que tomo. Gosto de complicar as coisas".
Mas Manuel Figueira é um homem simples, apaixonado pela pintura de Vincent van Gogh, influenciado pela obra de Jorge Amado e pelo pensamento de Abílio Duarte, um dos fundadores do PAIGC, primeiro presidente da Assembleia Nacional de Cabo Verde e quem içou a bandeira do país no dia da independência, em 1975.
E depois o escritor cabo-verdiano Baltazar Lopes da Silva, que o "empurrou" para os estudos em Lisboa, para a pintura, de que gostava desde criança.
"Se não fossem eles talvez tivesse ficado como qualquer cabo-verdiano habilidoso, por aí sem angústias, porque a nós a angústia da criação acompanha-nos sempre, não é, como as pessoas pensam, que temos uma vida feliz a pintar".
Mas não ficou. E hoje tem quadros em várias colecções privadas e instituições e expôs em diversos países da Europa, Estados Unidos e Brasil.
Quadros que contam histórias. De "Nhô Fula", um grande nadador e pescador de tubarões, de "Nha Rosa", uma mulher bondosa que conhecia as artes da medicina tradicional e que um dia curou uma sereia, de "Mané de Nhô Padre", tocador de mornas, ou de Fernandinho, que foi morto por um bruxo.
São histórias que o tio, Manuel Bonaparte Figueira, compilou e escreveu, retiradas de mitos e casos baseados em realidade, e que Manuel Figueira pintou. Bruxas e feiticeiros, animais reais ou imaginários pintados de muitas cores.
Manuel Figueira, o primeiro cabo-verdiano a tirar um curso de Belas Artes, director durante 11 anos do Centro Nacional de Artesanato no Mindelo (encerrado em 1997), está hoje reformado.
Ao longo da vida, um hábito nunca mudou: carregar para toda a parte um caderno para apontar ideias, frases e histórias. Muitos dos seus quadros têm saído dali.