Manuela Gonzaga traz nova luz sobre caso "de loucura" da herdeira do Diário de Notícias que abalou a sociedade no início do século XX
Lisboa, 18 Mar (Lusa) - A proclamada loucura da filha do fundador de Diário de Notícias, que se apaixonou pelo seu motorista nos começos do século XX, volta agora aos escaparates das livrarias, pela mão de Manuela Gonzaga.
Em declarações à Lusa, a escritora afirmou que "na posse de mais dados", designadamente o acesso à biblioteca do palácio de S. Vicente, onde ela viveu, e a descoberta de papéis guardados num fundo falso de uma escrivaninha permitiram "tecer e cruzar" factos e "encontrar uma lógica, como se de uma tapeçaria se tratasse".
Para a autora de "Maria Adelaide Coelho da Cunha: Doida não e não!", editado pela Bertrand, a realidade desta senhora que aos 48 anos abandona a sua casa, o palácio de S. Vicente, para ir viver "para uma aldeola perdida" com o seu motorista de 26 anos "ultrapassa a ficção".
"A imaginação é mais pobre que a realidade que lhe é dada pela cornucópia de acontecimentos rocambolescos em torno do caso", frisou.
Manuela Gonzaga não tem dúvidas: "Foi de facto uma história de um grande amor". Ela abandona tudo, riqueza e posição social, pelo motorista, Manuel Claro, enfrentou o marido, foi uma luta de titãs, e contra tudo e todos foi viver com Claro".
O caso fez correr tinta nos jornais, publicar vários livros e ser manchete nos jornais da época, no final da década de 1910, quando a "gripe espanhola" ceifava vidas e a Grande Guerra preocupava uma República ainda recente.
Para Manuel Claro, Maria Adelaide, rica herdeira do Diário de Notícias e muito estimada nos círculos literários e mundanos da capital, "foi a mulher da sua vida".
O motorista, referiu Manuela Gonzaga, podia ter refeito a sua vida no Brasil "onde tinha familiares abastados", mas recusou "por amor a ela, pois estava interditada e não o poderia acompanhar".
"Ele esteve preso quatro anos, e depois voltou para ela que, aliás o visitou disfarçada de lavadeira", contou, afirmado que "se alguns arranjinhos se lhe conheceram foi com a governanta da casa depois de Maria Adelaide ter morrido".
"Esta é uma verdadeira paixão, ele foi-lhe sempre fiel apesar dos obstáculos e ela não era uma menina e foi sempre envelhecendo e não tinha já fortuna", enfatizou.
A senhora de São Vicente, como era citada Maria Adelaide, "a dado passo e para todo o país era bem claro que nada tinha de louca".
O livro é resultado de cerca de dois anos de investigação, de ver "centenas de pastas", designadamente pelo acesso que lhe foi facilitado à biblioteca do palácio pelos actuais proprietários que nada têm a ver com Maria Adelaide ou o seu primeiro marido, Alfredo da Cunha, e ler muitos livros que foram publicados em torno do caso e outros paralelos "para melhor entender e captar o espírito da época".
"A própria Maria Adelaide escreveu dois livros, publicou crónicas, o marido respondeu, li relatórios médicos, cartas, e até pequenos apontamentos domésticos", explicou.
A preocupação da escritora foi "enquadrar na época Maria Adelaide". "Eu acho que apresentar uma pessoa destas sem a enquadrar, é pendurar no ar uma história e os seus figurantes. Esta não é a história de uma mulher, é uma história de vários homens, de uma sociedade, de uma época", acrescentou.
O "caso da senhora de S. Vicente" envolveu toda sociedade da época, incluindo nomes de referência como João Azevedo das Neves, Egas Moniz, Sobral Cid, Júlio de Matos, Leonardo Coimbra ou Lourdes Feyo.
"Vários eram os artistas, escritores, intelectuais, e gente elegante que frequentava o palácio de S. Vicente e se envolveram no caso", frisou.
"Havia que equacionar esta realidade. Que senhora é esta que de repente, em 1918, e após 28 anos de um casamento feliz, troca de roupa e vai para uma aldeola perdida por amor a um jovem de 26 anos", explicou.
"Este romance abalou a sociedade portuguesa e procurei trazê-lo aos dias de hoje num discurso fluente que não fosse maçador e que levasse as pessoas a acompanhar a vida dela", disse.
Para autora, o seu livro de 400 páginas é "uma janela aberta sobre o quotidiano da primeira metade do século XX".
NL.
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