Marcelo vê o maior acervo de D. Leopoldina, a austríaca mulher de D. Pedro tornada brasileira
Lisboa, 02 ago (Lusa) - O Presidente da República visita na quinta-feira o maior acervo de D. Leopoldina, a mulher de D. Pedro "que se tornou brasileira" e participou ativamente na independência e de quem o Rio de Janeiro emite "sinais constantes".
A exposição do Museu de Arte do Rio "Leopoldina, Princesa da Independência, das Artes e das Ciências", que associa os Jogos Olímpicos aos 200 anos da chegada de D. Leopoldina ao Brasil, é vista por Marcelo Rebelo de Sousa no terceiro dia de uma sua visita oficial de seis dias ao país, que se inicia hoje e leva o Presidente também a São Paulo e ao Recife.
"O museu juntou essa celebração dos 200 anos da chegada de D. Leopoldina ao Brasil às Olimpíadas, porque o Rio de Janeiro se transformou muito depois da elevação à condição de Reino Unido do Brasil e da presença da corte portuguesa e dela, de D. Leopoldina, uma mulher que se tornou brasileira, que assumiu essa nacionalidade quando o Brasil estava ainda a ser estruturado", disse à agência Lusa Solange Godoy, uma das curadoras da exposição.
A exposição reúne 350 peças, o maior acervo alguma vez concentrado, vindo de diversos museus brasileiros e também de colecionadores privados e antiquários, de uma mulher que nasceu na Áustria e morreu brasileira e regente, depois de ter agido pela independência do país, exercendo várias vezes a regência, nas ausências de D. Pedro.
A exposição, que reflete uma vida muito documentada, por escrito, pela própria D. Leopoldina - como quem hoje "tira `selfies` permanentemente" -, termina com um núcleo sobre a Escola de Samba Imperatriz Leopoldinense e um samba-enredo a ela dedicado, escrito por Rosa Magalhães.
"Nesse último momento se procura mostrar como a figura de Leopoldina é uma figura que se perpetua no quotidiano da cidade do Rio. Houve uma opção de terminar a exposição não com a morte de Leopoldina, mas com a sua descendência e os sinais constantes da sua presença na cidade do Rio de Janeiro", contou Solange Godoy.
Do acervo reunido, Solange Godoy destacou a exposição inédita de um manuscrito de D. Leopoldina, no qual, pelo seu próprio punho, se pode ler um código de conduta, uma proposta de uma ética de vida.
Outro objeto destacado pela curadora é um quadro de 1826, de Simplício de Sá, discípulo de De Bret, que mostra D. Leopoldina e D. Pedro a visitar uma instituição de crianças.
"Esse quadro é muito falante porque reproduz a atitude dela de abnegação, de interesse pelos problemas ligados à sociedade brasileira, tal como se começava a estruturar naquele momento. Há inclusive a presença de duas mulheres negras no quadro, que estão a amamentar crianças brancas", explicou Solange Godoy.
A exposição procura retratar também a Europa em reestruturação do início do século XIX, com o Congresso de Viena, depois do qual D. Leopoldina se casou, por procuração, com D. Pedro, numa aliança entre a Áustria e Portugal, que tinha "um imenso império colonial de que o Brasil era o diamante mais faiscante".
Pretende-se também mostrar como era o Rio de Janeiro que ela encontrou, retratado pelos artistas do século XIX, uma cidade de "natureza exuberante", que impressionou a jovem princesa mas também a missão científica que ela trouxe consigo.
A exposição procurou refletir a contribuição de D. Leopoldina para as ciências, sobretudo a mineralogia, e a sua presença "enquanto pessoa que se vai engajar no processo político da independência".
"Ela não era apenas a mulher de Pedro I. Ela foi regente várias vezes, quando ele viajava e morreu regente. Foi uma regente capaz de tomar atitudes, ela afinou a Constituição do Brasil, presidiu ao Conselho de Ministros", contou a curadora.
"Ela viveu um momento muito especial do Brasil e percebeu o momento que estava vivendo e não se furtou de participar", resumiu.
O trabalho dos curadores foi facilitado pelo facto de D. Leopoldina, uma mulher extremamente instruída, ter sido "compulsivamente ligada ao testemunho escrito", deixando, por exemplo, mais de mil cartas, entre um imenso espólio escrito.
"Leopoldina seria hoje alguém que faz `selfies` permanentemente. As fontes primárias são riquíssimas", afirmou Solange Godoy.