Mariana Alcoforado inspira performance sobre condição da mulher
Os tormentos amorosos de Soror Mariana Alcoforado, freira de Beja que viveu uma paixão não correspondida, inspiram a nova performance do grupo "Arte Pública", uma reflexão sobre a condição social da mulher que se estreia quinta-feira.
No Dia Internacional da Mulher, o espectáculo, denominado "Marianas", começa às 19:00, na Sala do Capítulo do Museu Regional de Beja, instalado no antigo Convento da Conceição onde a religiosa professou.
Inspiradora de poetas, romancistas e pintores, a religiosa da Ordem de Santa Clara, daquele convento de Beja, nasceu, viveu e apaixonou-se na cidade e ficou imortalizada pelas célebres cinco cartas de amor - "Cartas Portuguesas" - que lhe são atribuídas e foram dirigidas ao cavaleiro francês NoÙl Bouton, Marquês de Chamilly.
As cartas de amor de Mariana Alcoforado são o testemunho da sua paixão não correspondida, que perdura no tempo e tem despertado o interesse de todo o mundo.
Desde a primeira edição, datada de 04 de Janeiro de 1669, com o título "Lettres Portugaises Traduites en Français", sucederam-se até hoje centenas de edições em diferentes idiomas, poemas, peças de teatro, filmes e outras obras de interpretação plástica e musical.
Gisela Cañamero, directora artística do grupo de Artes Performativas de Beja, explicou hoje à agência Lusa que a performance "reflecte sobre a condição social da mulher através de um cruzamento de cartas de amor".
O ponto de partida, explicou, "é a terceira das cinco cartas de Mariana Alcoforado, onde são evidentes a desilusão, o engano, o tormento, a incerteza, a fraqueza e a insatisfação de uma mulher duplamente enclausurada, no convento e perante o objecto não correspondido da paixão".
"Esta carta vai cruzar-se com outras cartas bem mais contemporâneas e de quase resposta, mas de reacção criativa, às cartas atribuídas a Mariana Alcoforado", acrescentou Gisela Cañamero.
Trata-se de algumas cartas baseadas na história de amor da freira que constituem o livro "Novas Cartas Portuguesas", da autoria das escritoras Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa.
O livro, publicado em 1974 e que levou aquelas escritoras a ficarem conhecidas como as "Três Marias", oferece, de acordo com Gisela Canãmero, "um exercício literário sobre a condição da mulher portuguesa ao longo dos tempos".
A partir do cruzamento entre a carta de Mariana Alcoforado e as "novas cartas", que Gisela Cañamero considera terem "uma pertinência acutilante em termos sociais", a performance "reflecte sobre a condição feminina ao longo dos tempos em Portugal".
Ao som da música da violoncelista Halina Berezowvska, as cartas vão ser declamadas por Gisela Cañamero e cantadas pela cantora lírica Isabel Moreira, numa performance que fala de "Marianas".
"São simplesmente mulheres, apaixonadas, escravas e prisioneiras das suas emoções, libertas de grilhetas culturais, arrojadas, vítimas, cúmplices, temerosas e temerárias", disse Gisela Cañamero.
Além da estreia, a performance já tem novas sessões marcadas para os dias 09, 13 e 14, também na Sala do Capítulo do Museu Regional de Beja, mas às 21:30.