Mário Silva comemora 50 anos de carreira e 80 de vida com "imensa retrospectiva"

O pintor Mário Silva vai comemorar 50 anos de carreira e 80 de vida, em 2009, com uma "imensa retrospectiva" no Centro de Artes e Espectáculos (CAE) da Figueira da Foz.

© 2007 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A. /

"Não pode ser mais uma retrospectiva. Tem de ser `a` exposição", disse Mário Silva à agência Lusa, aludindo à mostra de pintura, escultura e vídeo prevista para o início de 2009 no CAE.

A ideia, acolhida pela empresa municipal Figueira Grande Turismo, que gere aquele equipamento cultural, está ainda em fase de germinação, no que à estrutura do evento diz respeito.

O artista plástico, nascido em Bencanta, Coimbra, em 1929 mas que, desde cedo, rumou à Figueira da Foz, pretende que a mostra inclua um comissário "de renome", ainda não escolhido e que, além da pintura e escultura, integre vídeo sobre peças de arte sacra de que é autor.

"Tenho uma colecção de arte sacra espalhada pelo país e não se podem trazer as igrejas ao CAE", argumenta.

Certo é que a exposição incluirá obras maiores do artista, nomeadamente as que têm as mulheres por inspiração, as cores como imagem de marca e nas diversas técnicas utilizadas o método de trabalho.

"Nunca me quis autoplagiar, ficar amarrado a um estilo único. Muitos fazem-no, pela necessidade de vender quadros, eu aposto na diversidade de técnicas", explica.

Não sendo um autodidacta no sentido estrito do termo, construiu a carreira de artista plástico na sabedoria que foi beber a fontes literárias, nas influências "que vão de Picasso a Vieira da Silva", na experimentação, contacto e amizade com outros pintores.

A vocação vingou, sobrepondo-se a um curso de Engenharia Geográfica nunca terminado, em Coimbra, pela "falta de queda para a Matemática". Na cidade universitária, o anarco-surrealista Mário Silva, como na altura se intitulava, fundou, nos idos de 1950, o Círculo de Artes Plásticas e até a secção de ballet da Associação Académica.

"Não dançava. Estava era apaixonado por uma bailarina, obviamente", assume, com um sorriso matreiro.

Há 30 anos que reparte com a segunda mulher, Zezinha - assumido grande amor da sua vida - uma casa térrea em Santa Luzia de Lavos, na margem esquerda do Mondego, onde mantém o atelier.

Quando ali se instalou "não havia uma árvore", recorda, apontando o terreno anexo, hoje preenchido por uma imensidão de plantas, entrecortadas por esculturas da sua lavra, uma das quais - feita com restos de um automóvel acidentado - acaba por ter uma didáctica justificação.

"Estampei-me de carro. Está ali para me lembrar que se conduzir não posso beber", frisa Mário Silva.

Para além das esculturas, uma vasta colecção de crucifixos enche cada recanto da propriedade: começou-a em pequeno, com um exemplar encontrado "numa igreja abandonada" no Alentejo.

"Cristo e as mulheres é o que nos une", testemunha o amigo Quim Madeira, ele próprio artista plástico, ribatejano há muito estabelecido na Figueira da Foz.

O Mário Silva cristão é, no entanto, ao mesmo tempo agnóstico, descrente da existência de um Deus todo-poderoso. Essa aparente dualidade expressa-a, bastas vezes, nas suas obras, como a "Penúltima Ceia", um óleo sobre tela de dois metros de comprimento onde Maria Madalena tem lugar à mesa, junto a Jesus.

Não se trata de uma heresia, garante, antes a "dualidade intrínseca" do artista, que assume um lado "provocador": foi ainda mais longe no tema, exibindo a "Antepenúltima Ceia", os apóstolos "trocados" por mulheres e um Cristo de cabeleira farta.

Uma das características de Mário Silva é a necessidade de pintar, "três a quatro horas" diárias, no atelier, divisão a que se acede pelo jardim.

É ali, rodeado por centenas de criações próprias, de onde sobressaem retratos - "caras, todas diferentes, interessa-me o lado humano", sustenta - que experimenta uma técnica nova (a pintura espacial) sobre a qual reclama paternidade.

O quadro é estruturado a óleo - o pintor só usa tintas de óleo, recusa as plásticas - com "linhas de força" após o que é coberto por uma camada de spray. Depois, com o auxílio de uma espátula, remove partes da camada sobreposta, dando vida a figuras geométricas, de cores garridas.

"Esta é uma técnica minha, foi inventada pelo artista", garante.

O escritor Urbano Tavares Rodrigues chamou-lhe, um dia, "esbanjador de talento". Já Quim Madeira classifica-o de "artista parideiro": "não sossega, está sempre a criar, é um miúdo crescido", refere.

Mário, por seu turno, diz-se igual a si mesmo, "um autoconvencido", concede na descrição de criança grande e, aos 77 anos, recusa o medo da morte.

"Sonhei a minha última obra, um lago imenso, cisnes brancos e um cisne preto que se transforma em mulher com quem faço amor. Há muito tempo que não tinha um sonho erótico", graceja.

E conclui: "a minha mulher diz que o cisne preto representa a morte, mas eu não tenho problemas com a morte. O que é importante num homem é ser-se criança a vida toda".

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