Mariza conquista Moscovo a cantar o fado
A fadista Mariza conquistou o Teatro Stanislavski, em Moscovo, levando uma jovem russa a declarar a semelhança de alma entre os dois povos e a comparar as balalaikas rusas com as guitarras portuguesas.
Não fora a desorganização por parte dos portugueses e a sala estaria completamente cheia.
Mais de 150 dos cerca de mil lugares da sala estavam vazios. Isto, enquanto dezenas de estudantes de português, a quem tinha sido prometidos bilhetes, foram impedidos de assistir aquele que foi, talvez, o maior acontecimento cultural português dos últimos anos na Rússia.
"Dobri vetcher (Boa noite)", disse Mariza, ao entrar, num russo tão limpo que conquistou o primeiro grande aplauso do seu concerto em Moscovo.
Depois Mariza e a sua orquestra ganharam rapidamente os espectadores.
"Há muito de semelhante na alma dos nossos povos", comentou à agência Lusa, Irina, uma jovem russa depois do concerto, concretizando: "As vossas guitarras alegram-se e choram como as nossas balalaikas".
"Não", contesta outra jovem estudante, defendendo que "é a melancolia, a que os portugueses chamam saudade e os russos "toska", que nos transformam em almas gémeas".
"O fado é tão semelhante às nossas romanças, que se Mariza começasse a cantar "Otchi therni" (Olhos negros), ao som da guitarra, seria um bonito fado português", declara Gueorgui, tradutor de português.
A maioria dos espectadores presentes na bela sala do Teatro Stanilavski fala, estuda ou simplesmente admira a sonoridade da língua de Camões.
A organização portuguesa duvidava que a fama de Mariza e do fado desse para encher a sala mas os seus CD`s estão à venda não só nas livrarias e discotecas, como também nos mercados de produção musical pirata.
"Spassibo, spassibibo" (obrigado, obrigado)", agradeceu Mariza, depois dos fortes aplausos a temas como "Há uma música do povo", "Cavaleiro monge" ou "Feira de Castro".
"Mariza cativou o público também com a sua humildade e sinceridade", opinou o estudante Konstantin, depois do concerto, tendo ficado surpreendido pela revelação da cantora de que tem raízes moçambicanas.
Os ouvintes não queriam que Mariza terminasse, que se fosse embora do palco, pois são raras as vezes em que se pode ouvir o fado na Rússia.
Amália Rodrigues passou por São Petersburgo há muitos anos, Carlos do Carmo também actuou na Rússia mas há muito tempo. Ana Sofia Varela e Mísia actuaram na Rússia mais recentemente mas falta-lhes o "peso" internacional de Mariza.
Ao contrário dos dois concertos que a fadista realizou na capital russa em 2004, a actuação de hoje não precisou de aquecer os corações dos russos, porque eles estavam prontos para a ouvir.
Foi com o tema "Ó gente da minha terra" que ela se despediu dos espectadores e foi aplaudida de pé.
Os poucos portugueses que vivem em Moscovo gostariam que ela se deslocasse mais vezes à Rússia.
"Uma voz destas vale por muito, faz-nos compreender a língua que estudamos na universidade, transmite-nos a sua melodia, a sua musicalidade", comentava um dos estudantes que conseguiu bilhete para assistir ao espectáculo.
"Da próxima vez - comentavam alguns portugueses no cocktail realizado aós o concerto - é preciso uma sala maior. Ninguém deve ficar à porta".