Marvila dividida entre bairros sociais e condomínios de luxo

Susana Oliveira e Raquel Rio (texto) e Tiago Petinga (Fotos), agência Lusa

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Lisboa, 06 Mai(Lusa) - Marvila tem cerca de 70 por cento da população a viver em bairros sociais e prepara-se para receber nos próximos anos novos residentes para condomínios de luxo. Estes empreendimentos vão marcar a nova face desta freguesia da zona oriental que pouco sentiu os efeitos da Expo`98.

"Marvila beneficiou principalmente a nível de acessibilidades. Hoje sai-se e entra-se através de vias rápidas", disse à Lusa o presidente da Junta de Freguesia, Belarmino Silva.

Marvila é a freguesia de Lisboa com mais terrenos disponíveis para construção e tem um curso vários projectos, como o do novo Hospital de Todos os Santos, o do Instituto Português de Oncologia (IPO) e da nova catedral, além de investimentos privados.

Nos terrenos da antiga Fábrica de Sabões, um projecto da Obriverca aguarda a decisão relativamente ao TGV e à Terceira Travessia do Tejo.

"A Obriverca aguarda esta decisão para o novo empreendimento", adiantou, referindo-se ao polémico loteamento da Lismarvila aprovado pela autarquia em 2004 e que acabou por não avançar por causa das medidas preventivas decretadas pelo Governo.

No Poço do Bispo, o condomínio Jardins de Braço de Prata, do arquitecto Renzo Piano, aguarda aprovação desde 1999 e na antiga Petroquímica deverá nascer "um condomínio com outras valências, com uma escola secundária e com serviços sociais".

Da totalidade de projectos em análise na autarquia, segundo o presidente da Junta, a maior parte contempla condomínios.

"Os condomínios são bem-vindos, mas terão que se abrir aos outros munícipes e permitir o uso dos equipamentos por toda a população", alertou.

A concretizarem-se os projectos, "Marvila terá uma zona muito pobre e outra muito rica", afirmou o autarca, alertando para o perigo desta clivagem entre "muito ricos" e "muito pobres".

"Deviam ser criados outros bairros junto aos PER [que resultaram do Programa Especial de Realojamento] para minimizar o impacto negativo destas áreas", considerou.

Um exemplo a seguir é o das cooperativas, que têm adquirido terrenos e promovido a construção junto a alguns destes bairros, "que são bem vindas porque trazem outro tipo de gente".

"A Câmara tem de ter a preocupação de alterar o pressuposto das cooperativas de habitação, que são obrigadas a dar 10 por cento do seu edificado à autarquia, ou então pôr à venda estas casas para quem quiser comprar", defendeu, sublinhando que quem compra "tem maior cuidado na manutenção dos espaços do que quem está nos bairros sociais".

Dos 50 mil habitantes de Marvila, cerca de 70 por cento vivem em bairros sociais, muitos deles construídos ao abrigo dos programas especiais de realojamento.

O autarca adiantou à Lusa que na zona velha de Marvila está prevista a reabilitação da maioria do edificado e aponta como principal vantagem a localização privilegiada junto ao Tejo.

O cenário deverá ser manter apenas algumas fachadas "porque o edificado é muito velho".

"Aqui a autarquia deverá ter uma grande preocupação porque a maior parte da habitação é privada", avisou.

Muitos destes projectos iam ser realizados pela SRU Oriental, que previa recuperar todo o edificado, desde o Pátio da Quintinha ao Poço do Bispo.

"A SRU nasceu mal, não tinha meios. E não tendo verba, teria de encontrar parceiros para executar os projectos", o que não chegou a acontecer.

Apesar do predomínio da habitação, Marvila começou recentemente a atrair novos visitantes com projectos diferentes na área cultural.

Um dos exemplos é a antiga fábrica de munições, agora conhecida como Fábrica Braço de Prata, fruto da vontade de duas livrarias - Ler Devagar e Eterno Retorno -, que se associaram e apostaram em iniciativas culturais que "têm sido uma mais valia" para a freguesia, reconheceu o autarca.

Para Junho, está prometido "um grande evento cultural", que se espera levar cerca de 30 mil visitantes a Marvila. Trata-se de um festival de gastronomia e cultura que durante quatro dias mostrará a gastronomia de várias regiões do país.

Quanto ao património, além das degradadas instalações fabris de empresas que abandonaram a freguesia, Marvila guarda ainda alguns palacetes, uns recuperados por privados, como é o caso do Palácio do Armador, e outros que já têm comprador mas aguardam projecto de recuperação, como o dos Alfinetes, que deverá transformar-se num "hotel-aeroporto".

"Há um cidadão francês que quer fazer no Palácio dos Alfinetes um hotel que, com alguns acordos com companhias aéreas, pudesse receber os passageiros dos voos que por motivos vários são diariamente cancelados ou adiados, deixando as pessoas em terra", contou.

Belarmino Silva faz um balanço positivo dos impactos da Expo`98 na freguesia, mas diz que foram essencialmente ao nível das acessibilidades.

"Marvila precisa acima de tudo de recuperar o edificado e reconstruir a zona ribeirinha para transformar a zona velha num pólo agradável. Precisa também de mais valências e mais empresas para fixar as pessoas e criar emprego e vida própria. Neste momento é um dormitório", reconhece.

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