Max Von Sydow reconhece que "ser actor é uma profissão estranha"
Porto, 26 Fev (Lusa) - Aos 79 anos e depois de uma carreira de mais de 130 filmes em quase seis décadas, Max von Sydow confessou hoje, no Porto, que "ser actor é uma profissão estranha, porque se passa a vida a fingir ser quem não se é".
Nascido em 1929 no seio de uma família de classe média-alta, de pai etnólogo e mãe (uma baronesa) professora, Max von Sydow estudou na Escola Real de Drama de Estocolmo (1948/51) para ser actor de teatro e fez teatro durante alguns anos, apesar de ter obtido o seu primeiro papel no cinema, ainda durante o curso, no filme "Bara en mor", de Alf Sjöberg.
A sua carreira incluiu papéis tão diversos como o imperador Ming, em "Flash Gordon" (1980), o artista Frederick em "Ana e as suas irmãs" (1986) ou o padre Lankester Merrin, em "O Exorcista", 1973, ou Jesus Cristo em "The Greatest Story Ever Told" (1965).
Max von Sydow, que se encontra no Porto porque é alvo de uma homenagem do 28º Fantasporto pela sua carreira, foi nomeado para o Óscar de melhor actor num filme de língua estrangeira pelo seu papel em "Pelle, o Conquistador" (1987).
Apesar de todo o seu currículo cinematográfico, o teatro foi - e continua a ser - a sua primeira paixão.
"É muito diferente do cinema, porque no teatro trabalhamos intimamente com uma equipa, actores e técnicos, que vemos todos os dias e temos uma obra completa para entregar, dia após dia, a um público que vemos e cujas reacções sentimos", disse.
No cinema, embora conheçam a versão inicial do guião, muitas vezes os actores nem chegam a contactar parte do restante elenco.
"Fazemos a nossa parte mais ou menos isoladamente e depois as nossas cenas são montadas. Só conhecemos o resultado no final da produção, muitos meses depois", diz von Sydow.
No seu trabalho cinematográfico, prefere as pequenas produções, com pequeno orçamento, à maneira de Ingmar Bergman e do cinema europeu, às grandes produções de Hollywood.
Foi profundamente marcado pelos onze filmes que fez com Ingmar Bergman (falecido em 2007), que considera "um génio".
"O senhor Bergman trabalhava de uma forma muito rigorosa, era muito exigente, preparava tudo muito bem com os actores (e técnicos), não mais de 30 a 40 pessoas, e depois quando a filmagem começava era tudo muito rápido e organizado", disse.
Nas grandes produções norte-americanas, a máquina é muito pesada, são muitas centenas de pessoas envolvidas mas é tudo mais impessoal.
Considera que os filmes mais importantes da sua carreira foram os que fez com Bergman, especialmente "O Sétimo Selo" (11960) mas a personagem que mais gostou de encarnar foi a de Lassefar, no épico "Pelle The Conqueror" (1987), de Bille August, que narra a história de um grupo de emigrantes suecos, que enfrentam a xenofobia na ilha dinamarquesa de Bornholm.
"É uma personagem que aparece em situações tão diferentes, foi o trabalho mais complexo da minha vida como actor mas também o que me deu mais gosto fazer", considerou.
Salientou que, sobretudo na sua carreira internacional, interpretou muitas vezes o papel do mau da fita.
"Como era muitas vezes o único estrangeiro do elenco, cabiam-me os papéis de vilão", disse, salientando que isso não o incomoda nada.
"Não me importa se as personagens são moralmente boas ou más, porque eu não tenho que gostar das personagens para as conseguir interpretar bem, tenho é que as compreender, tenho que perceber porque é que elas fazem coisas horríveis, se esse for o caso", considerou.
O mais recente filme em que trabalhou Max von Sydow é "Emotional Arithmetic", de Paolo Barzman, que foi exibido segunda-feira, no Rivoli, depois do filme de abertura, o multi-oscarizado, "Este não é um país para velhos", dos irmãos Cohen.
Em fases distintas de produção, mas ainda não terminados, estão outros três filmes em que participou, "Un Homme et son Chien", de Francis Huster, um "remake" do clássico de Vittorio de Sica, "Solomon Kane", de Michael J. Bassett, e "Truth & Treason", de Matt Whittaker, que se passa no interior da resistência alemã ao nazismo.
Dentro de três dias, Max von Sydow parte para Nova Iorque, a convite de Martin Scorcese, que o quer no seu próximo filme (o 135/o da filmografia do actor sueco), sobre cujo enredo não quis falar, por estar ainda em rigoroso segredo.
PF.
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