Memória coimbrã de Zeca Afonsoultrapassa as margens do Mondego

Coimbra, 22 fev (Lusa) -- O cantor José Afonso, que todos em Coimbra continuam a tratar por `Zeca`, deixou na cidade uma memória afetiva, cultural e política que vai além das margens do rio Mondego, 30 anos após a sua morte.

Lusa /

Esta herança, com especial enfoque no ideal libertário e humanista de José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos, falecido em Setúbal, aos 57 anos, em 23 de fevereiro de 1987, é atualmente partilhada por antigos universitários, músicos e amigos do autor de "Grândola, Vila Morena".

Entre esses, a agência Lusa ouviu hoje o médico Louzã Henriques, que residiu na República Palácio da Loucura quando estudava na Universidade de Coimbra, a ex-autarca Teresa Alegre Portugal, o especialista de medicina chinesa Pedro Choy e os músicos Rui Pato e Luís Garção Nunes.

Nos anos 60 do século XX, em plena ditadura de Salazar, "apetecia-nos trazer à superfície alguma coisa da cultura popular" e que contribuísse para "um mundo mais justo", afirmou Louzã Henriques.

"Quem teve capacidade natural para se meter nisso foi o Zeca", sublinhou, recordando que ele trilhou um caminho musical em que alguns intérpretes do fado de Coimbra já antes se tinham destacado, como Edmundo Bettencourt e Machado Soares, por exemplo, a que se seguiram Adriano Correia de Oliveira e demais contemporâneos do criador de "Venham Mais Cinco".

Para o psiquiatra e etnólogo, o seu amigo "acabou por ter uma afirmação que ultrapassou Coimbra" e uma academia "muito preocupada com a luta ideológica e política" desde o século XVIII.

Teresa Alegre Portugal conheceu José Afonso quando namorava com o falecido guitarrista António Portugal, que costumava acompanhar o cantor nas suas atuações.

"O fado de Coimbra é a raiz de toda a música do Zeca", defendeu a irmã do poeta Manuel Alegre, também amigo do cantor.

Na sua opinião, "já nesse tempo, de capa e batina, ele era um homem diferente, muito alegre e com um sentido de humor único".

A antiga vereadora da Cultura da Câmara de Coimbra guarda do músico "uma memória muito afetuosa" e assegura que José Afonso, "sempre muito inquieto", era uma pessoa "completamente livre".

Pedro Choy estudava Medicina, em Coimbra, e morava na República dos Kágados quando morreu José Afonso, em 1987, tendo integrado a representação das repúblicas locais no seu funeral, em Setúbal.

"O Zeca tinha passado pelos Kágados e era uma referência entre os estudantes, sobretudo nas repúblicas", referiu.

Choy, que também tocava viola nas festas da casa comunitária mais antiga de Coimbra, lembra que "Zeca deu o mote da revolução" de 1974 e simbolizou até à morte "o espírito democrático" da revolução do 25 de Abril.

O médico Rui Pato tinha 16 anos quando participou na gravação dos primeiros discos de José Afonso, acompanhando-o à viola.

Seu pai, o jornalista Rocha Pato, era amigo do fadista que buscava novos rumos para a música coimbrã, integrando ambos uma tertúlia do café "A Brasileira", na Baixa da cidade.

"O meu pai foi persistente com ele e, através dos conhecimentos que tinha, acabou por ser o produtor do início da carreira do Zeca", disse Rui Pato.

No dia 26 de maio de 1983, José Afonso deu o seu último concerto na cidade que o viu crescer na inovação criativa, passando depois para a música de intervenção.

O espetáculo era uma iniciativa do Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra (GEFAC), no âmbito das suas Jornadas de Cultura Popular, e estava programado para o Teatro de Gil Vicente.

A Câmara Municipal, então presidida por Mendes Silva, um independente eleito pelo PS, decidiu distinguir Zeca com a medalha de ouro da cidade.

A procura de bilhetes foi tal que a autarquia e o GEFAC decidiram realizar o concerto no Jardim da Sereia, ao ar livre.

Lá estava Rui Pato, com guitarra clássica, de novo a acompanhar o amigo de tantas jornadas.

Luís Garção Nunes estava na organização do programa do GEFAC, mas também enquanto membro da Brigada Victor Jara, que atuou igualmente nessa noite, perante milhares de pessoas.

"Foi um momento memorável. `A Sereia` estava a abarrotar", disse à agência Lusa o instrumentista, que, na sexta-feira, participa num jantar evocativo de José Afonso, na Lousã.

Na sua opinião, o criador de "Grândola" tornou-se "uma referência nacional em termos de melodia".

"No contexto musical, social e de intervenção", José Afonso já estava "muito à frente" no panorama nacional e internacional, defendeu Luís Garção Nunes.

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