Morreu aos 79 anos o actor Raul Solnado

Morreu esta manhã, aos 79 anos, o actor Raul Solnado. A informação foi avançada pelo Centro Hospitalar Lisboa Norte - Hospital de Santa Maria que em nota enviada à comunicação social anunciava a morte do comediante, cerca das 10.50 horas, na sequência da evolução de um quadro clínico cardio-vascular grave.

RTP /
A morte do actor Raul Solnado coloca de luto a cultura portuguesa Tiago Petinga, Lusa

Raul Solnado estreou-se a 14 de Fevereiro de 1953 na revista "Canta Lisboa" e, em entrevista à agência Lusa, em 2002, dizia que desde então se tornou "uma fábrica de rir".

Raul Augusto de Almeida Solnado nasceu em Lisboa a 19 de Outubro de 1929, na Madragoa, bairro onde pela primeira vez pisou o palco, na Sociedade Guilherme Cossul, tendo o nome de Solnado dado pela família por causa de uma expressão que ouvira na aldeia de Fundada (Tomar) - "Acordem que já é sol nado".

Desde o palco da Sociedade Guilherme Cossul, Solnado tornou-se primeira figura em diversas revistas do Parque Mayer, em Lisboa, ao lado de nomes como António Silva, Humberto Madeira e Vasco Santana e de muitas comédias "que se mantinham em cartaz durante anos".

Actor de revistas, comédias, telenovelas e vários filmes, Solnado é, na opinião da actriz Alina Vaz, que várias vezes contracenou com ele, "uma das últimas vedetas a sério em Portugal".

"A guerra de 1914/1918" ou "É do inimigo?" tornaram Raul Solnado um nome de primeiro plano da cena portuguesa, popularidade que a televisão, através do programa de televisão "Zip Zip" (1969), aumentou extraordinariamente.

A televisão trouxe-lhe "milhões de admiradores", como afirmou à imprensa, recordando outros êxitos de sua autoria, designadamente, "A visita da Cornélia" e "E o resto são cantigas" ou "Querido avô".

Alina Vaz, que ao seu lado interpretou "Oh que delícia de coisa", no Teatro Villaret, disse à Lusa que o actor "era um homem com imensas histórias de casos e de acontecimentos, de emoções e sensibilidades do teatro".

Depois de concluir o Curso Comercial, em 1947, Raul Solnado começou a trabalhar no teatro amador, afirmando-se profissionalmente em 1953.

A década de 1950 foi de ascensão, na opereta, na comédia, na revista e, a partir de 1956, também no cinema, e o ano de 1961 marcou o aparecimento do seu primeiro célebre monólogo - "A guerra de 1918" na revista "Bate o Pé", no Teatro Maria Vitória -, a que outros se seguiram, catapultando Solnado para o cume da fama, mercê, em grande parte, da larga difusão que a rádio deu a esses trabalhos, gravados em disco.

Em 1969 esteve na base, com Fialho Gouveia e Carlos Cruz, do memorável programa do historial da RTP "Zip Zip", onde assinou alguns "sketches" inesquecíveis, mas outro programa sempre recordado foi "A Visita da Cornélia", que a RTP apresentou mais tarde e em que Solnado participou com o humor de sempre.

O actor actuou também no Brasil, em finais da década de 1950, com "largo sucesso" em vários programas de televisão e também em teatro.

Como empresário fundou e dirigiu o Teatro Villaret de 1964 a 1970 onde Raul Solnado deixou assinalada passagem tendo promovido alguns dos mais importantes espectáculos da década de 1960.

O actor está igualmente ligado ao projecto da Casa do Artista, de que foi mentor, juntamente com o actor e encenador Armando Cortês, também já falecido.

Foi o actor José Viana que o trouxe para o teatro com quem fez em 1951 o espectáculo "Sol da meia-noite" que se realizava no cabaré Maxime e que "revolucionou os espectáculos da noite".

A última vez que pisou o palco foi em 2001, no Teatro Trindade, na peça "O magnífico reitor" de Freitas do Amaral, em que contracenou, entre outros, com Rui Mendes e Ana Bustorff.

Em 2002 iniciou no Casino Estoril o projecto "Conversa à solta" em que recordava êxitos da sua carreira de mais de 50 anos e com o qual percorreu vários palcos do país.

A telenovela "A ilha dos amores" foi a sua última participação na televisão, que contava no elenco com a sua neta Joana Solnado, em que contracenou, entre outros, com Sofia Alves e Elisa Lisboa.

Ao longo da carreira, Raul Solnado recebeu várias distinções e galardões, tendo um dos mais recentes sido a Pena de Camilo da Câmara de Vila Nova de Famalicão.

Lisboa perdeu uma das figuras mais populares
O presidente da Câmara de Lisboa, António Costa, considera que, com a morte do actor Raul Solnado, "Lisboa perdeu uma das figuras mais populares e queridas das últimas décadas".

"Eu perdi um grande amigo, sempre presente com o seu apoio e os seus conselhos que o tempo tornara sábios", refere António Costa numa nota do município lisboeta.

Recorde-se que Raul Solnado era mandatário sénior da candidatura de António Costa que sublinha ainda na mesma nota o "extraordinário talento como actor e comediante" e refere que a imagem que dele retém é a de "um ser humano de excepção e de um amigo cuja falta será irreparável".

"Nunca o esquecerei e estou certo que Lisboa tudo fará para preservar a memória do grande artista e cidadão Raul Solnado", refere António Costa que apresenta ainda "as mais sentidas condolências" à família concluindo que "todos vamos sentir a falta do nosso querido Raul".
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