Morreu cineasta Frederick Wiseman

Morreu cineasta Frederick Wiseman

O documentarista norte-americano Frederick Wiseman, realizador de filmes como "Titicut Follies", "At Berkeley", "National Gallery" e "Ex Libris", morreu esta terça-feira, aos 96 anos, em Cambridge, Massachusetts, anunciou a sua produtora, num comunicado conjunto com a família do cineasta.

Inês Moreira dos Santos - RTP /
Reuters

Morreu Frederick Wiseman. O cineasta norte-americano tinha 96 anos.

Com uma carreira de 60 anos, realizou dezenas de documentários.

"É com grande pesar que a Zipporah Films e a família Wiseman anunciam a morte de Frederick Wiseman, cineasta, produtor e encenador [...]. Tinha 96 anos e considerava Cambridge, Massachusetts, Northport, Maine e Paris, França, como as suas casas", lê-se na mensagem publicada na página de abertura do 'site' da produtora, com a qual o cineasta fez todos os seus 45 filmes.

Venceu o leão de ouro de carreira, no festival de cinema de Veneza, com um trabalho que revelava o dia a dia das instituições públicas norte-americanas.

Ganhou também um óscar, como realizador, num filme sobre os presos, num hospital psiquiátrico, em Massachusetts.
Nascido em Boston, em 1930, Frederick Wiseman formou-se no Williams College e na Faculdade de Direito de Yale. Iniciou a carreira cinematográfica no começo da década de 1960 "e rapidamente se estabeleceu como um artista ferozmente independente, dedicado a explorar as subtilezas da vida institucional, desafiando o público a formar as suas próprias opiniões", acrescenta a produtora, no comunicado hoje divulgado.

O primeiro filme produzido por Wiseman foi "The Cool World", dirigido por Shirley Clarke, sobre um 'gang' do Harlem, em Nova Iorque, na década de 1960.

Em 1967, seguiu-se "Titicut Follies", que Wiseman produziu, dirigiu e montou, um retrato dos detidos no Hospital Prisão de Bridgewater, para inimputáveis, documentário que afirmou o seu nome, o seu percurso, de imediato premiado nos festivais de Mannheim e de Florença, e que marcou o cinema documental.

"Durante quase seis décadas, Frederick Wiseman criou uma obra incomparável, um registo cinematográfico abrangente das instituições sociais contemporâneas e da experiência humana quotidiana, principalmente nos Estados Unidos e em França. Os seus filmes — de 'Titicut Follies', à sua obra mais recente, 'Menus-Plaisirs - Les Troisgros' — são celebrados pela sua complexidade, força narrativa e olhar humanista", recorda a Zipporah Films.

Wiseman continuou a explorar a vida em instituições em mais de 40 documentários, como "High School", "Law and Order", sobre o Departamento de Polícia de Kansas City, "Hospital", "Public Housing" e "City Hall".

"O que os meus filmes têm em comum [...] é examinarem os laços entre indivíduos e autoridade", disse Frederick Wiseman em entrevista à revista francesa Positif, em 1976.

O seu cinema tem sido exibido regularmente em Portugal, nomeadamente na Cinemateca Portuguesa, que lhe dedicou pelo menos dois ciclos: em 1980, pouco depois da abertura da Sala Félix Ribeiro, e em 1994, abrangendo a filmografia do cineasta, até "Central Park", "Aspen" e "Zoo".

O festival DocLisboa programou Frederick Wiseman regularmente, tendo-lhe dedicado uma retrospetiva em 2008, e exibido os seus filmes, ao longo de diferentes edições, como "Crazy Horse", "Ex Libris - The New York Public Library", "City Hall", "Mr Landsbergis" e "Menus Plaisirs - Les Troisgros".

Em 2006, Frederick Wiseman foi convidado da Doc's Kingdom, seminário internacional do cinema documental organizado pela Apordoc - Associação pelo Documentário, que nesse ano se realizou em Serpa.

Wiseman recebeu um Óscar honorário em 2016, o Leão de Ouro do Festival de Veneza pelo conjunto da sua obra, em 2014, e os prémios de carreira da Associação de Críticos de Los Angeles, em 2012, da Associação Internacioal do Documentário (International Documentary Association), em 1990, e da Quinzena dos Cineastas do Festival de Cannes, em 2021, entre dezenas de outras distinções, como o prémio da crítica do Festival de Berlim, pelo seu filme "Near Death", o Grande Prémio do Festival de Marselha, por "Public Housing", e os prémios Emmy por "Hospital" e "City Hall".

A Academia de Televisão dos Estados Unidos atribuiu-lhe igualmente o Emmy de carreira, pelo conjunto da obra, em 2010.

Em 1980, Wiseman venceu o prémio de melhor documentário (Imagens e Documentos) do antigo Festival Internacional de Cinema da Figueira da Foz, por "Manoeuvre".

Hoje, a Zipporah Films, em nome da família do cineasta, "pede gentilmente", que, em vez do envio de flores, seja apoiada "a afiliada local da PBS [cadeia pública norte-americana de televisão] ou uma livraria independente em memória de Frederick Wiseman".

c/ Lusa
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