Morreu Gabriel García Márquez

O escritor colombiano galardoado com o prémio Nobel e considerado máximo expoente do "realismo mágico" latino-americano, morreu esta quinta-feira com 87 anos de idade. García Márquez padecia de cancro e encontrava-se há algum tempo em estado muito grave.

RTP /
Edgard Garrido, Reuters

Entre as suas obras mais famosas avulta, naturalmente "Cem anos de solidão", que foi traduzida em todas as línguas e teve inúmeras e repetidas edições. Ironizando sobre si próprio, García Márquez diria em artigo publicado anos mais tarde que "Cem anos de solidão" não era prova de uma imaginação tão fértil e criativa como tinham dito alguns críticos demasiado entusiastas. Isto porque, explicava, o escritor latino-americano, com um rio como o Amazonas pela frente, ao pé do qual todos os rios europeus são "arroyos", pode limitar-se a contar o que vê e mesmo assim passará por ser senhor de uma criatividade inesgotável e quase delirante.

Para ilustrar este rompante de falsa modéstia, "Gabo" contava que um leitor lhe escrevera, agradecendo-lhe por tê-lo curado de um complexo de inferioridade que o afligia desde pequeno. Esse complexo, dizia o leitor, era o de ter um rabo de porco. E ficou curado ao conhecer o protagonista de "Cem anos de solidão", Aureliano Buendia, também ele com um rabo de porco. Conclusão de "Gabo": mesmo quando o escritor latino-americano julga ter inventado algo originalíssimo, não consegue superar a realidade.

Outras obras de García Márquez foram libelos devastadores contra as ditaduras "gorilas", como "Ninguém escreve ao coronel".  Outra ainda, "O amor nos tempos da cólera" falava de um amor vivido nos tempos de uma epidemia. Desse romance, embora não tenha sido imediatamente o mais aplaudido que escreveu, dizia García Márquez que seria o mais duradouro e o mais apreciado pela posteridade.

Uma outra obra ainda, "O general no seu labirinto", empreendia um subtil exercício de desmitificação do herói latino-americano por excelência, Simón Bolívar. Sem lhe negar os méritos históricos, procurava encará-lo em todas as suas facetas, várias e contraditórias.

Curiosamente, a desmitificação de Bolívar não o tornou menos idolatrado do movimento chavista. Politicamente, "Gabo" manteve ao longo da vida uma estreita ligação com a revolução cubana e com o castrismo e uma amizade pessoal com Fidel Castro. Mais recentemente, era uma autoridade tutelar para a cultura da revolução bolivariana.
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