Morreu Margarida de Abreu

A professora Margarida de Abreu, falecida hoje aos 90 anos, que falava de si própria como a "rabujenta da dança", será sempre recordada como a pioneira do ensino da dança em Portugal.

Agência LUSA /

Apaixonada pela dança, à qual dedicou mais de 60 anos da sua vida, Margarida de Abreu foi professora e coreógrafa tendo dirigido vários agrupamentos artísticos, nos quais se inclui o Grupo de Bailados Portugueses Verde Gaio.

Margarida Hoffmann de Barros Abreu Salomão de Oliveira nasceu a 26 de Novembro de 1915 em Lisboa, tendo recebido uma profunda educação humanística e artística e uma sólida formação musical.

O pai, António Barros de Abreu, era advogado e cunhado de Afonso Costa, e a mãe, Helena Hoffmann, de nacionalidade suíça, veio para Portugal dar lições de francês, alemão e piano.

Margarida de Abreu teve o seu primeiro contacto com a dança aos 12 anos através da ginástica Rítmica Dalcrozeana com as profesoras Cécil Kitkat e Sosso Ducas-Schau.

Aos 17 anos partiu para Genebra, Suíça, para integrar o Institut Jacques Dalcroze, onde se formou em 1937, e prosseguiu os estudos na Alemanha no Deutsche Tanz Schule, em Berlim, seguindo depois para o Hellerau Laxemburg Schule, em Viena, na Áustria.

Devido a uma ciática numa perna e costas, Margarida de Abreu deixou de dançar e foi para Inglaterra onde fez estágios de ensino, em 1947 e 1948 na Sadler's Wells, em Londres (hoje Royal Ballet School).

Margarida de Abreu regressou a Portugal com o início da II Guerra Mundial e percebeu que não havia nenhuma tradição balética no país e que a dança existente era a das revistas do Parque Mayer e das óperas do Coliseu.

Em 1939, a convite do director do Conservatório Nacional, Ivo Cruz, torna-se professora de dança do curso de teatro do Conservatório (de 1939 a 1986).

Em entrevista à agência Lusa há dois anos, Margarida de Abreu disse ter aceite aquele lugar para fazer uma reformulação no ensino, pois considerava que a dança nunca poderia estar incluída numa secção de teatro e iniciou então uma luta pela formação académica e profissional do bailado.

No Conservatório deu aulas de dança teatral tendo tido como alunos, João d'Ávila, Catarina Avelar, Alina Vaz, Mariana Rey-Monteiro, entre outros.

Nas suas primeiras experiências coreográficas, Margarida de Abreu colocou como intérpretes um grupo de alunas do Conservatório que pela primeira vez se apresentaram fora do contexto escolar.

Desta experiência, em 1944, Margarida de Abreu criou o Círculo de Iniciação Coreográfica (CIC) que traçou um caminho paralelo ao grupo dos Bailados Verde Gaio, dirigido por António Ferro e orientado por Francis Graça, cujo estilo era mais o folclore.

O CIC permitiu a Margarida de Abreu iniciar uma campanha para a divulgação do bailado clássico. Ana Máscolo, Águeda Sena e Fernando Lima foram alguns dos alunos que fizeram parte do Círculo e que chegaram a fazer estágios no estrangeiro.

Em 1946, Margarida de Abreu publicou o seu "Manifesto" em defesa da dança como forma de arte e do seu ensino.

Em 1960, o CIC acabaria por fechar e, nesse mesmo ano, Margarida de Abreu e o seu ex-aluno Fernando Lima são convidados para remodelar os Bailados Verde Gaio, iniciando uma luta contra o que considerava ser a estilização do folclore.

Paralelamente integrou a recém-formada Escola de Bailado de São Carlos como coreógrafa, um projecto da Alta Cultura que durou de 1964 a 1972.

Margarida de Abreu esteve 18 anos à frente dos Bailados Verde Gaio, onde introduziu a técnica classicista e expressionista, guiada pela dança interpretativa de Mary Wickman e de Isadora Duncan.

No entanto, Margarida de Abreu não parou, continuou a leccionar no conservatório - onde esteve 50 anos - e no seu estúdio particular em Lisboa.

Após ter deixado o ensino oficial, Margarida de Abreu criou o Grupo Studium, com o qual apresentou algumas novas peças ou recriações de obras do passado com antigos e actuais alunos.

Do seu extenso trabalho coreográfico fazem parte, entre outros, "Bailado Setencista" (1943), "Pastoral" (1943), "O Pássaro de Fogo" (1946), "Serenata" (1946), "Dança do Vento" (1949), "Nocturnos" (1958) e A menina dos olhos verdes" (1971).

No cinema, Margarida de Abreu foi a coreógrafa do filme "Amor de Perdição", "Francisca" e "Os Canibais", de Manoel de Oliveira.

Margarida de Abreu foi agraciada com a Ordem de Instrução Pública (1979 , recebeu o Troféu da Casa da Imprensa, nesse mesmo ano, e em 1980, numa homenagem no Teatro Nacional de São Carlos, recebeu a Medalha Almeida Garrett.

Em 1988 é agraciada com o Troféu do Jornal "Sete" e em 1990 com a Medalha de Mérito Artístico do Conselho Brasileiro de Dança.
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