Movimento comunitário levou à redescoberta de antigos estaleiros navais em Macau
Macau, China, 10 abr (Lusa) -- Um movimento comunitário, com petições, protestos e atividades culturais, em defesa dos estaleiros navais de Lai Chi Vun pôs Macau a refletir e a redescobrir aquela zona da ilha de Coloane, onde a indústria naval deu o último suspiro.
Os primeiros sinais de ação surgiram depois de as autoridades vedarem, em meados do ano passado, 11 de 18 lotes "gravemente deteriorados" devido à falta de manutenção, mas foi a iminente demolição de duas estruturas por razões de "segurança pública", efetivada há um mês, que desencadeou um maior movimento, dividindo inclusive moradores: uns concordaram, por o risco de colapso ser real, outros lamentaram a ausência de um estudo ou plano prévio à intervenção repentina dos `bulldozers`.
Pelo menos três abaixo-assinados foram entregues, incluindo um da iniciativa de um arquiteto português, que apelava à não-demolição por os estaleiros representarem "a memória de uma indústria naval que em Macau teve grande importância" e por o conjunto constituir "uma forma de património arquitetónico" que "valida uma identidade cultural própria".
Em resposta a petições, o Instituto Cultural anunciou a abertura do procedimento para avaliar se os estaleiros devem ser classificados como património cultural.
Esse processo, que pode demorar um ano, teve o efeito de suspender qualquer intervenção - construções ou demolições -, e foi visto como uma boa notícia, apesar de tardia.
Tam Chon Ip, descendente de antigos construtores navais, que desde 2012 chamou a si a "missão" de transmitir a importância e preservar a história daquela "arte de precisão", andou numa roda-viva no mês passado, desdobrando-se em atividades.
Além de uma palestra, fez visitas guiadas, organizadas pela publicação `online` em chinês All About Macau, que produziu um desdobrável com ilustrações, incluindo um mapa e uma cronologia entre outros dados, para dois dias de `tours` gratuitos, que atraíram, no total, mais de 100 interessados.
Tam, de 37 anos, formado em Arqueologia, esteve também numa sessão promovida por David Marques, de 30 anos, dirigente da Associação de Moradores da Povoação de Lai Chi Vun, que convidou o arquiteto italiano Marco Imperadori, para expor as ideias que alunos de mestrado do Instituto Politécnico de Milão projetaram para aquela zona há alguns anos.
Apesar de reconhecer "constrangimentos" como custos da execução, o arquiteto, que visita o território há 15 anos, também deu exemplos `low cost` e até lançou a proposta de se deixar a zona livre.
Exibiu ainda fotos que tirou naquele estaleiro em plena atividade e que, estando hoje em "muito boas condições", ao contrário de outros adjacentes, podia ser convertido num museu da história da indústria naval.
"Colecionem ideias do que gostariam de ter aqui. Mostrem que o dinheiro não é o único valor. Coloane tem natureza, bom `feng shui`, património, indústria naval e até teve piratas. As pessoas precisam de histórias e de lendas", sublinhou.
Também na senda de Lai Chi Vun nasceu um projeto comunitário, depois de David Marques, de 30 anos, se aperceber dos poucos hábitos de leitura.
O professor de inglês está a construir uma "pequena biblioteca gratuita" - sob forma de uma pequena casa com menos de um metro de altura -, usando materiais que caraterizam as habitações e estaleiros - para a troca de livros.
Entusiasta da "autenticidade", "identidade" e "calmo ritmo e peculiar estilo de vida", como "alternativa" ao caos da cidade, diz que não sabe o que quer na sua Lai Chi Vun, mas tem certeza do que não quer: betão.
"Gosto mesmo do sítio, escolhi viver aqui. Todas estas coisas podem ser consertadas, preservadas... O simples rio com o pôr-do-sol pode ser inspirador", sublinhou.