Mulheres escritoras ainda reproduzem modelo machista - Paulina Chiziane
Rio de Janeiro, 25 nov (Lusa) - A escritora moçambicana Paulina Chiziane relativizou, esta sábado, uma alegada "democratização" da literatura entre as mulheres, ao argumentar que muitas das escritoras contemporâneas ainda reproduzem um modelo machista nos seus textos.
"Algumas vezes confundimos a literatura feminina com a literatura escrita por mulheres e penso que isso é um erro, porque a maior parte das mulheres ainda escreve com uma ideia machista", afirmou Chiziane durante debate no festival "Back2Black", o maior certame de cultura negra na América Latina, no Rio de Janeiro.
Para a autora, que participou do painel intitulado "O papel da mulher na literatura e na vida em África, Cuba e Brasil", não basta ser mulher para ser capaz de escrever uma literatura mais "holística" e "dignificante".
É preciso fazer uma "descolonização" do modelo machista, defendeu.
"Nós, quando vamos descrever, o único modelo que conhecemos é o modelo machista e se não nos apercebemos, fazemos a reprodução desse modelo. Muitas vezes surpreendo-me ao ver mulheres a usarem a linguagem dos homens", lamenta.
Chiziane citou como exemplo textos escritos por mulheres nos quais as personagens femininas aparecem descritas meramente pelos seus atributos físicos, como na maior parte dos romances masculinos.
"Para mim, uma mulher é um mundo de pensamentos, de sentimentos, de sonhos, de realizações, de frustrações... Se eu tenho uma personagem mulher, significa descrever todo esse universo, mas muitas escritoras, quando vão descrever outras mulheres, imitam os homens", reforça a autora de "Niketche: Uma História de Poligamia".
Paulina Chiziane esteve pela primeira vez no Rio de Janeiro exclusivamente para participar no Back2Black, onde lançará a 21 de dezembro, o seu próximo romance "Na mão de Deus".