Museu Nacional de História Natural e da Ciência expõe "Moranças - habitações tradicionais da Guiné-Bissau"

Com o título "Moranças - habitações tradicionais da Guiné-Bissau", esta exposição dá a conhecer uma seleção de fotografias e objetos de acervo histórico e cientifico sobre as tradicionais habitações da Guiné-Bissau. Está patente até 20 de fevereiro no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, da Universidade de Lisboa.

Inicialmente, esta mostra foi pensada para estar acessível ao público durante um ano. Mas a riqueza do espólio e a procura levaram o Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Lisboa, a deixar "morar" a exposição durante mais de três anos e meio. A data para desaparecer dos olhares curiosos é o dia 20 de fevereiro.

Intitulada “Moranças - habitações tradicionais da Guiné Bissau”, esta exposição dá a conhecer uma seleção de fotografias e objetos de acervo histórico e científico sobre as habitações tradicionais da Guiné-Bissau.

A maior parte das fotos foi registada entre 1956 e 1960. As imagens foram doadas ao Instituto de Investigação Científica Tropical em 2014 por Fernando Schippa Campos.

A elaboração desta exposição vai além do simples registo documental, apresentando os registos expostos profundas impressões do sentimento que causou aos intervenientes.


As fotografias mostram “que a construção e a tipologia das habitações estão intimamente ligadas a todos os aspetos das vivências destas comunidades, desde a sua estrutura familiar, à alimentação, ao trabalho, ao ensino, aos rituais e às práticas religiosas, numa enraizada relação entre o homem, o meio ambiente e os recursos naturais”, explica a curadora Catarina Mateus.

Já do ponto de vista estético, a exposição “Moranças – habitats tradicionais da Guiné-Bissau” inspira-se na famosa exposição fotográfica “The family of Man”, comissariada por Edward Steichen, do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, em 1955. Exposição que originou um catálogo e que, quatro anos depois, Fernando Schippa Campos levou na missão para a Guiné-Bissau, mostrando a população local e tendo assim conseguido iniciar diálogos. Um olhar sobre o povo da Guiné-Bissau
O estudo da vida das sociedades não se compreende apenas olhando para elas. É preciso senti-las e vivê-las. E foi precisamente isso que fizeram Fernando Schiappa de Campos e António Saragga Seabra, dois arquitetos que enveredaram numa Missão de Estudo do Habitat no interior da Guiné, entre 1959 e 1960.

Esta missão visava diagnosticar a forma de habitar de diferentes grupos étnicos na Guiné-Bissau, com a finalidade de conceber planos de urbanismo e projetos de imóveis-tipo já praticados pelos Gabinetes de Urbanismo em Portugal Continental, como relatou Catarina Mateus, curadora da coleção de fotografia do MUHNAC-ULisboa e uma das comissárias da exposição.

Catarina Mateus, comissária da exposição Moranças - Habitats Tradicionais da Guiné Bissau. Foto: Lúcia Vinheiras Alves/MUHNAC-ULisboa

“Fazer uma exposição sobre a coleção Missão de Estudo do Habitat Nativo à Guiné (MEHNG) foi um dos objetivos delineados na doação desta coleção ao IICT. Após o tratamento, eu e o colega João Santos (conservação e catalogação das coleções de fotografia) apresentámos uma proposta à Direção do Museu, que prontamente se entusiasmou dada a evidência da qualidade das imagens desta coleção fotográfica. Foi a primeira exposição focada nas coleções de fotografia do IICT a realizar no MUHNAC, após fusão na Universidade de Lisboa.”

Catarina Mateus diz que deram conta deste espólio durante as visitas ao atelier do arquiteto Fernando Schiappa Campos, onde estavam diversos materiais. Imagens de missões científicas que evidenciavam uma postura de aprendizagem, respeito e diálogo por parte da equipa com as comunidades.

Após análise, a curadora deu conta do estado de conservação e explica que, na generalidade, apesar de o material ter cerca de 60 anos, as condições eram de qualidade razoável, apresentando pontualmente pequenos danos resultantes do uso e pequenas alterações químicas.

Trata-se de um vasto espólio de mais de duas mil fotos tiradas por Fernando Schiappa de Campos e António Saragga Seabra, bem como alguns manuscritos e cadernos de campo usados pelos arquitetos e pelo sociológo Amadeu Castilho Soares. Apenas cerca de 150 peças foram seleccionadas e expostas ao público.

Patente até dia 20 de fevereiro no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Lisboa a exposição "Moranças- habitats tradicionais da Guiné-Bissau" dá a conhecer uma selecção de fotografias e objetos de acervo histórico e cientifico sobre os tradicionais habitats da Guiné- Bissau.

  Catálogo é elo entre Felupes e arquitetos
Durante a Missão de Estudo destas tipicas habitações, entre 1959 e 1960, os dois arquitetos tinham em vista “diagnosticar a forma de habitar de diferentes grupos étnicos na Guiné Bissau”. Um objetivo com a finalidade de conceber planos de urbanismo e projetos de imóveis-tipo já praticados pelos Gabinetes de Urbanismo em Portugal Continental.

A melhor forma de conhecer a arte e engenho destas construções foi “falar/comunicar” com os produtores desta arte de construção habitacional destas comunidades ancestrais. Sendo inicialmente muito difícil estabelecer uma comunicação verbal, refere Catarina Mateus.

Foi através da linguagem universal visual que Fernando Schiappa de Campos e António Saragga Seabra conseguiram o elo necessário para enveredarem pela missão.


As primeiras abordagens com as comunidades Felupes foram feitas por Schiappa Campos, de forma casual. E mostrou algumas das imagens de um catálogo que transportava consigo da exposição de fotografia Family of Man. A ação acabou por atrair a curiosidade dos locais, revelando outro mundo e “quebrando o gelo” entre os dois portugueses na comunidade rural Felupe.

Exposição atualizada por visitantes guineenses
A exposição “Moranças” estava planeada para durar 12 meses a acabou por permanecer patente por três anos e meio. Catarina Mateus, na entrevista dada ao site do Museu Nacional de História Natural e da Ciência, refere que “de uma forma geral a exposição trouxe muita empatia e reflexão aos visitantes. O interesse gerou-se por distintos motivos e era sobretudo isso que nos motivava: interessados por fotografia, pela Guiné-Bissau, pela história colonial, mas também as escolas que encontraram uma forma de transmitir às crianças a diversidade cultural e de vivências”.

Alguns dos visitantes que vieram  com o apoio do Serviço Jesuíta aos Refugiados, ao reconhecerem as práticas apresentadas nas fotos, deixaram os próprios registos dessas práticas ancestrais, parte dos quais ainda presentes nas molduras da exposição. Mas não só.

“Moranças” serviu também de mote para debates sobre a forma como a tutela dos museus europeus, de coleções produzidas em contexto de dominação colonial, podem ser orientadas e de como pode ser realizado o trabalho de promover a inclusão das comunidades de origem das coleções.

“Deu-nos oportunidade de iniciar uma reflexão sobre estes temas, quer com a comunidade académica quer sobretudo com parceiros que trabalham diretamente com estas comunidades, e de perceber que muito há a fazer e dialogar”, explica Catarina Mateus.


“Fizemos visitas que foram na verdade partilhas, onde se cantou em crioulo, se contaram histórias pessoais, onde as memórias ganharam uma dimensão muito real. Senti muitas vezes que estas fotografias tocaram as pessoas e que involuntariamente as transportaram para o conceito da humanidade como um todo, como o fez a Family of Man. Pessoalmente acho que foi uma experiencia riquíssima. Aprendi muito. E vi muitos sorrisos, para mim, o mais importante”, concluiu.

O museu está a preparar um catálogo-livro com imagens da exposição, que chega ao fim a 20 de fevereiro, mas também as participações resultantes dos vários projetos e atividades que foram surgindo com o Serviço Jesuíta aos Refugiados (SJR), como o projeto da Elisabeth Brooks, as Vozes da Guiné-Bissau, entre outros. Tem ainda uma intervenção artística do guineense Marinho de Pina e textos de investigadores que se focaram nos temas da arquitetura, ciência colonial e antropologia.