Musical apresenta 50 canções de Chico Buarque, cada uma delas uma peça de teatro
Redação, 16 jan (Lusa) -- O espetáculo "Todos os musicais de Chico Buarque em 90 minutos", de Charles Möeller e Cláudio Botelho, apresenta 50 canções do autor brasileiro "que são, por si só, uma peça de teatro", disse um dos autores.
Em declarações à Lusa, Cláudio Botelho afirmou que apenas foram escolhidas canções compostas por Chico Buarque para teatro, cinema e televisão, e realçou que é a primeira vez que a obra do poeta e compositor é abordada nesta perspetiva.
"São canções que tem princípio, meio e fim, e que são, por si só, uma peça de teatro", frisou.
Este espetáculo, que se estreou em 2014, no Brasil, por ocasião do 70.º aniversário de Buarque, sobe à cena no Coliseu do Porto, nos dias 08 e 09 de março, e no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, nos dias 11 e 12 do mesmo mês.
"O Chico [Buarque] não é dado a celebrações, e nunca aceitaria colocar a sua vida em palco, mas nós encontrámos uma maneira de falar da sua obra. Não foi uma tarefa simples, a sua obra é grande e com muitos aspetos variados, mas nós já tínhamos trabalhado a produção de Chico Buarque, o que facilitou", contou.
"Chico Buarque em 90 minutos" conta a história de uma companhia de teatro que anda em digressão.
"Nós criámos uma situação ficcional, em que uma trupe viaja pelo Brasil, que `mabemba` [que se desloca de casa em casa], como dizemos no Brasil, e o Chico tem até uma canção chamada `O mambembe`, que incluímos no alinhamento", disse.
"Há o dono da trupe, a sua mulher e o filho, uma cigana, e uma atriz mais velha. Nada é falado, antes é contado através da música, por outro lado as personagens estão no início de demência, o que cria no espetador um certa dúvida, se será mesmo assim, ou não", adiantou.
Botelho acrescentou que os figurinos "remetem para um teatro brasileiro similar ao de Portugal, nomeadamente d`A Barraca, e o espetador fica na dúvida se usamos a roupa do dia-a-dia ou a de uma personagem".
O palco é partilhado por oito atores, entre eles Cláudio Botelho, que encarna o patrão da trupe, e quatro músicos.
As canções escolhidas foram compostas por Chico Buarque para produções musicais como "Gota d`água", "Ópera do malandro", "Roda vida", "Bye, bye Brasil", "Joana francesa", "Para viver um grande amor", "O corsário do rei", "Calabar", "Quando o Carnaval chegar", "O grande circo místico" e "Dona Flor e seus dois maridos", esta última baseada na obra homónima de Jorge Amado.
Do alinhamento faz também parte "Funeral de um lavrador",canção composta por Chico Buarque para a montagem do poema "Morte e vida de Severina", de João Cabral Melo Neto, pelo grupo do Teatro da Universidade Católica de São Paulo, em 1965.
Segundo Claudio Botelho, Chico Buarque "viu e gostou do musical, e até nem se lembrava já de uma canção", quanto a reparos ou exigências, "nenhuns, apenas dois dias depois telefonou a pedir para cortar umas estrofes".
"Ele explicou que não era com o nosso trabalho, ele é que não gostava mais daquelas estrofes", esclareceu Botelho.
Chico Buarque pediu para retirar duas estrofes da canção "Bárbara", de "Calabar", "pois não são boas mais, e também uma de `Pedaço de mim`, da `Ópera do malandro`, com muito pesar nosso, pois a estrofe é linda", afirmou.
Francisco Buarque de Hollanda nasceu a 19 de junho de 1944, no Rio de Janeiro, popularizou-se como músico, ligado ao movimento da Música Popular Brasileira (MPB).
Em 1965, em duo com Nara Leão, interpretando a canção "A banda", de sua autoria, venceu o II Festival de MPB, ex-aequo com um grupo composto por Jair Rodrigues e os trios Maraiá e Novo, que interpretou "Disparada".
Filho do historiador Sérgio Buarque de Hollanda, Chico é autor de vários romances, o mais recente "O meu irmão alemão", editado no ano passado em Portugal, e também de peças teatrais.
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