Músicos prestam tributo ao ícone da guitarra Les Paul
A notícia da morte de Les Paul, o autodidacta que em 1941 criou o protótipo da moderna guitarra eléctrica, está a ser recebida com um misto de reverência e consternação entre as gerações de executantes tributários do seu génio inventivo. Uma pneumonia, aos 94 anos, foi fatal para um criador que era há muito uma lenda maior no "Rock and Roll Hall of Fame".
Foi em 1941 que o músico de cabelos cor de fogo conhecido como Red Hot Red deu à luz "O Tronco", um simples bloco rectangular de madeira maciça a servir de base a um rudimentar par de pick-ups, ao qual Les aparafusou um braço de guitarra acústica. Mais tarde, acrescentaria duas "asas" à sua invenção, dando-lhe um aspecto mais tradicional.
Na esteira de várias experiências de amplificação - ensaiadas a partir de meados dos anos 20 por outros nomes lendários como Adolph Rickenbacker ou George Beauchamp -, Les Paul tentou vender a sua ideia ao mercado. A Gibson levaria quase dez anos a passar do desdém à encomenda do protótipo do modelo Les Paul. Em 1952, a mais famosa guitarra da companhia começava a ser produzida em série.
A guitarra Broadcaster, o primeiro instrumento de corpo sólido a chegar ao mercado, começara a ser desenvolvida no final dos anos de 1940 pelo construtor Leo Fender. A Les Paul, porém, não deixaria de prosperar nos anos vindouros, a par de modelos da empresa rival tão bem sucedidos como as prolíferas Stratocaster e Telecaster.
Guitarra de assinatura
O papel do virtuoso guitarrista do Wisconsin no lançamento das sementes do Rock n'Roll, ilustrado não só pelo modelo Les Paul mas também pela introdução do gravador de oito pistas, é hoje reconhecido por centenas de milhares de músicos, guitarristas ou não.
Alguns ascenderam eles mesmos, por direito próprio, à condição de lendas ou de "deuses da guitarra", alimentando rivalidades apaixonadas e controvérsias, até mesmo verdadeiros cultos professados por admiradores e aprendizes de acordes mais ou menos talentosos.
A Les Paul tornou-se a guitarra predilecta de músicos como Jimmy Page, fundador dos míticos Led Zeppelin, ou Pete Townshend, da banda The Who, passando por executantes de gerações posteriores como o exuberante Slash. Steve Howe, dos Yes, e o gigante do Jazz Al Di Meola figuram também entre os guitarristas que adoptaram o modelo de Les.
"Um exemplo brilhante"
Entre as vozes que se erguem, desde quinta-feira, num tributo planetário a Les Paul, está a do guitarrista Joe Satriani, que disse continuar a encarar o pioneiro agora desaparecido como "o primeiro herói da guitarra": "Les Paul criou um padrão para a condição de músico e para a inovação que continua por superar. Em Outubro, estive com ele em palco no clube The Iridium, em Nova Iorque, e ele continuava a brilhar. Ele foi e continua a ser uma inspiração para todos nós".
"Ele aprendeu sozinho a tocar guitarra para demonstrar as suas teorias electrónicas. Todos temos uma dívida inimaginável para com o seu trabalho e o seu talento", assinalou, por sua vez, o excêntrico Keith Richards, guitarrista dos Rolling Stones.
Para o presidente executivo da Gibson, Henry Juskiewicz, o universo da música despede-se, por estes dias, de um visionário que "criou coisas", ao contrário de "alguns futuristas que apenas escrevem e fazem previsões".
"Les Paul foi um exemplo brilhante de quão preenchida pode ser uma vida. Ele era tão vibrante e cheio de energia positiva. Sinto-me honrado e humilde por tê-lo conhecido e tocado com ele ao longo dos anos. Ele era um homem excepcionalmente brilhante", afirmou Slash.
No arranque da carreira na estrada, Red Hot Red tocou com a banda de Chicago Rube Tronson and His Texas Cowboys, liderou a banda residente da emissora de rádio WJJD e dedilhou nos Fred Waring's Pennsylvanians, antes de rumar à Big Apple para formar o Les Paul Trio com Jim Atkins e Ernie Newton. Ao lado de Mary Ford, com quem esteve casado entre 1949 e 1962, conquistaria 36 discos de ouro e ganharia fama com um programa de televisão transmitido durante sete anos a partir da sua casa em Nova Jérsia. Nos últimos anos, Les Paul tocava todas as semanas no Clube de Jazz Iridium, em Nova Iorque.