"Nada serve" assinala regresso do escritor José Amaro Dionísio
*** Raul M. Marques, da Agência Lusa ***
Lisboa, 12 Nov (Lusa) - Jornalista até há poucos anos, escritor - mas admite que escreve "pouco" -, José Amaro Dionísio regressou agora à escrita com "Nada serve", uma colectânea de contos. Há 17 anos que não publicava ficção.
"Conhecemos a retórica - disse em entrevista à agência Lusa - : escrevemos para não enlouquecer, escrevemos para não nos atirarmos ao rio, escrevemos porque a solidão blá blá blá e etc. e etc. Para mim, é tudo muito mais simples: escrevo, pouco, porque por uma razão qualquer me deu para isso, ou porque assumi um compromisso com alguém, às vezes por amizade, às vezes para ganhar umas coroas, ou porque não tive mais nada de interessante para fazer, ou porque me deu a maluca e ponto final".
Aquilo a que chama "o palavreado mitológico da escrita, a armar à tragédia" fá-lo rir, a sua onda é outra. Mas são "de rigor" as contas que faz, ao compulsar o que até agora publicou.
"Sim - contabiliza - , em rigor há 17 anos que não saía um livro meu novo de ficção, se porventura aquilo que escrevo é ficção, coisa de que estou longe de ter a certeza. Significa que em 17 anos escrevi 30 páginas, o que dá menos de duas páginas por ano. Porquê? Simplesmente porque sim. Mas também escrever para quê? Há tanto livro por aí, o mundo passa bem sem os meus livros".
O mundo ficcional de José Amaro Dionísio é o de todos os seus livros. Os homens e as mulheres das histórias de "Nada serve", como antes em "Notas sobre a circulação de um corpo", a sua obra de estreia, em 1978, "Bardo" e "Todo o alfabeto dessa alegria", são de estirpe contrária à dos vencedores que os catálogos recomendam e enaltecem, o limite e a perda são as marcas da sua genealogia.
Vivem como se tivesse chegado o último dia das suas vidas e o soubessem. São, por isso, criaturas dispostas a tudo - a sofrer, a matar, a morrer - criaturas extremas, sacrificiais.
"No fundo - diz - a literatura é uma coisa que dá para fingir tudo o que quisermos, até dá para imaginar umas personagens a viver, coitadas, o seu último dia de vida. E a coisa ainda se torna mais sedutora se conseguirmos fingir que é aliás o autor da prosa, e não as personagens, que está à beira de ir p´ró maneta".
Aparte o risco de informações dadas prematuramente, o autor, nascido em 1947 em Faro, está de saúde - e atento ao que vai acontecendo, nos livros e nos "media". O diagnóstico é devastador.
Literatura portuguesa hoje? Remete a resposta para um dos textos do livro agora publicado e onde se assevera que "o cheiro da montra" literária não vale uma dessas bifanas que se podem comer num certo tasco em Vendas Novas.
"Quer dizer - esclarece - :o ruído é muito, se deixarmos passar o ruído fica uma pequena estantezinha que dá guardar o punhado de livros que apareceram depois de `Os Passos em Volta`. 30, 40, 50? Já não é mau. Para mim chega".
Se é pouco abonatória a avaliação que faz da literatura, mais dura é ainda a que lhe merece o jornalismo, território que conhece bem e onde, quando oficial deste mister, chegou a ser nome de referência. "Massacres na guerra colonial - Tete um exemplo" (Ulmeiro, 1976) e "Vidas caídas - diário de um repórter na Amazónia" (Antígona, 1993) são dois exemplos a atestar a sua capacidade como repórter.
Amaro Dionísio iniciou muito jovem ainda a sua carreira nos jornais, A Capital à cabeça da lista, em 1969, prosseguindo no Jornal do Fundão, no Jornal do Comércio, no Século Ilustrado, na antiga ANOP depois LUSA, no jornal Público, em várias revistas.
A situação nos "media" é, diz, "fácil de definir: o sistema controla tudo. Controla até mesmo aquilo que não se dá à maçada de controlar".
"Porquê? - questiona - Porque é o sistema que faz a agenda dos `media`. Os jornalistas movem-se nos parâmetros que o sistema definiu - a ´democracia´, a partidarização do contraditório, a `objectividade` , a legitimação das fontes anónimas que são parte interessada na `informação` que dão, a cedência das regras do jogo aos poderosos, a opinião institucionalizada, etc - e a partir daí já não há nada a fazer. As excepções à regra, quando aparecem, só servem para confirmar a regra".
"Nada serve" é uma edição da Averno, com capa de Luís Manuel Gaspar.