"Não é apenas festa, é um negócio económico". Criador do Rock in Rio pede aos governos de Portugal e do Brasil aliança no investimento em grandes eventos

"Não é apenas festa, é um negócio económico". Criador do Rock in Rio pede aos governos de Portugal e do Brasil aliança no investimento em grandes eventos

Em entrevista à RTP, o fundador do Rock in Rio defende uma estratégia política coordenada entre Lisboa e Brasília para capitalizar o turismo, elogia a nova casa lisboeta no Parque Tejo e recorda como o evento nasceu para celebrar a redemocratização do Brasil.

Daniel Catalão - Correspondente da RTP no Brasil / Adicionar como fonte informativa
RTP

Roberto Medina sustenta que o entretenimento de massas deixou há muito de poder ser encarado pelas tutelas políticas como mero lazer. Como tal, numa altura em que o Rock in Rio volta a movimentar multidões em solo carioca, o criador e presidente do festival lançou, em declarações à RTP, um apelo direto aos executivos de Lisboa e de Brasília: é urgente encarar os grandes eventos como investimento estratégico e motor económico bilateral.

"Tem de ser um projeto político do governo português e do governo brasileiro" porque "é uma bobagem" tratar o negócio de entretenimento apenas como festa e não como investimento, sublinhou Roberto Medina, frisando que o poder público precisa de mudar de paradigma.

"A gente olha para um evento como esse e isso não é só festa, isso é festa que gera recurso", remata.

Os números apresentados pelo empresário sustentam a dimensão do impacto: no Rio, o evento injeta a mais na economia carioca 3,2 mil milhões de reais (cerca de 539 milhões de euros) e em Lisboa já passa dos 500 milhões de euros no total das dez edições. Segundo um estudo desenvolvido pela Nova SBE (School of Business and Economics), a edição mais recente do Rock in Rio Lisboa gerou um impacto global na economia portuguesa na ordem dos 120 milhões de euros (somando efeitos diretos, indiretos e induzidos). Este valor decorre dos gastos de produção, patrocínios, transportes e, sobretudo, do consumo de hotelaria e restauração por parte de festivaleiros nacionais e internacionais.

Para Medina, a rota turística entre os dois países vive um momento único, mas carece de visão concertada. "A junção Brasil e Portugal nessa questão da ponte turística é um ganha-ganha enorme", refere o empresário avisando, porém, que mesmo havendo boa oferta, "se não bater o tambor, a gente não chega. Não chegando gente, não gera economia, e economia gera justiça social, pra lá e pra cá".

Este ano, Portugal levou para o recinto do festival uma identidade sensorial própria através de uma ação do Turismo de Portugal. No espaço dedicado à promoção do país, os visitantes podem ouvir excertos de oito discos de vinil que não contêm canções convencionais, mas antes as paisagens sonoras que definem o território luso: o mar, a natureza, o património, a gastronomia e a cultura. Cada tema foi estruturado como uma "banda imaginária" — com projetos conceptuais como Waves of Solitude, alusivo à costa e ao oceano, ou Full Table Nation, dedicado à mesa e aos produtos regionais. A iniciativa traduz as regiões turísticas portuguesas numa experiência imersiva de áudio, propondo ao público brasileiro uma viagem pelo país através da escuta e da textura sonora.
A chegada a Lisboa e a mudança para o Parque Tejo
A relação do festival com Portugal começou em 2004, num momento em que a marca procurava internacionalizar-se. Roberto Medina não esquece a audácia da estreia lisboeta nem a barreira de desconfiança inicial que teve de desbravar.

"Portugal foi muito importante na vida do Rock in Rio", reconhece o empresário, realçando que em Lisboa se abriu "uma janela para o mundo" pelo que "Portugal fez bem para o Rock in Rio e o Rock in Rio fez bem para Portugal". Lembra que, na altura, o choque de padrões impulsionou a própria indústria de espetáculos europeia.

Com algum humor, conta que achava que chegava a Lisboa com o "maior evento do mundo" e teria tudo a seus pés. Mas não foi assim. "Eu tive de começar do zero e explicar a cada um. Estive com a RTP, estive com todos os jornais conversando. As pessoas estranhavam. Era um momento em que os festivais ainda não estavam estruturados com toda a sofisticação para receber as pessoas e colocámos um padrão muito forte, não em relação a Portugal, em relação à Europa".

Após anos de consagração no Parque da Bela Vista, Medina elogia a aposta liderada pela sua filha, Roberta Medina, na transição para o Parque Tejo. "A gente podia se acomodar no Parque da Bela Vista, que eu particularmente adoro. Fui eu que escolhi aquele espaço", refere o empresário frisando que a filha o desafiou a fazer "uma coisa diferente". E ficou convencido logo que colocou os pés no Parque Tejo.

"Quando eu cheguei naquele espaço, olhei a ponte no fundo, o pôr do sol, e falei: esse aqui é o maior projeto da Europa, longe dos outros".

Aos 79 anos, não tem medo de projetar o futuro. Tendo no horizonte o Mundial de Futebol em Lisboa, em 2030, o presidente do festival antecipa voos maiores: "Estamos a fazer uma segunda etapa do Rock in Rio Lisboa que vai ser fantástica. Vocês vão ter a Copa do Mundo também. É uma oportunidade de ganhar mais corpo ainda".

E para o Rio de Janeiro pensa a 15 anos perspetivando um parque de diversões do género da Disney.
O rigor da engenharia lusa e os sonhos brasileiros
O cruzamento transatlântico é também, para Roberto Medina, uma simbiose de competências: a paixão brasileira aliada à precisão da engenharia e da produção em Portugal. O desafio pós-pandemia de colocar duas edições de grande escala de pé no mesmo ano exige equipas com padrões de rigor extremos. "É um desafio bacana, mas a gente está com uma equipa que veio sendo construída há muitos anos. Tem esse ADN de não aceitar menos, de querer fazer mais e entregar mais".

Às vozes que outrora apontavam a escala geográfica de Portugal como um obstáculo, Medina responde com pragmatismo de mercado. "Era muito comum nas entrevistas dizerem: 'Ah, mas Portugal é pequeno'. Não é pequeno. O tamanho de um país é a capacidade de você sonhar. Portugal está na esquina da Europa inteira. O consumidor de Portugal não é só o consumidor que mora ali; é Espanha, Inglaterra. É incrível o mercado que vocês têm".

O empresário confessa ainda o seu apego afetivo ao quotidiano lisboeta: "Vocês têm uma tradição de hotelaria fantástica. Já tenho até o meu quartinho lá no Hotel da Lapa, continuo no mesmo quarto, eles já sabem. Nós todos ganhámos um carinho enorme por Portugal".
1985: A música como movimento cívico na redemocratização
A génese do festival em 1985 esteve longe de ser um mero plano de negócios da indústria discográfica, foi concebido como uma manifestação cívica e coletiva no momento em que o Brasil encerrava mais de duas décadas de regime militar, contou Roberto Medina na entrevista à RTP.

"Eu queria fazer um movimento de pessoas jovens de cabeça. No Brasil, naquela época, um grande evento eram 30 mil pessoas. Eu podia ter sonhado com 100 mil. Não: desde o primeiro dia em que criei o Rock in Rio, sabia que era um milhão e meio de pessoas", lembrou o fundador do evento.

"Eu não via como uma coisa de banda. A música mexe com a emoção, mas eu estava a querer fazer um movimento para a redemocratização que estava a acontecer no Brasil, mostrar a cara da juventude para o Brasil e para fora. Ficámos 25 anos numa ditadura, na repressão. Aquilo animava-me".

A ousadia obrigou a inventar uma infraestrutura que não existia no país nem no continente. Medina conta que há mais de 40 anos, estavam "na contramão da história".

"A gente não tinha som, não tinha luz, não tinha nada. A paixão supera as dificuldades. A máquina sofisticada que se criou para sobreviver às intempéries de um país onde a inflação era muito alta foi muito grande".

A primeira edição do Rock in Rio realizou-se entre 11 e 20 de janeiro de 1985, num terreno de 250 mil metros quadrados em Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. O evento reuniu cerca de 1,38 milhões de espectadores ao longo de dez dias e contou com um alinhamento que juntou gigantes internacionais do rock e da pop, como Queen, AC/DC, Iron Maiden, Yes, Rod Stewart, Scorpions, Ozzy Osbourne, Whitesnake e The B-52's. Do Brasil, subiram ao palco Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso, Gilberto Gil, Rita Lee, Lulu Santos e Ney Matogrosso.
O antídoto do encontro ao vivo num mundo polarizado
Atualmente, num contexto internacional marcado por crispações geopolíticas e pelo isolamento digital, o fundador do Rock in Rio defende a função quase terapêutica da música ao vivo.

"O ser humano é gregário, a gente precisa um do outro. E essa coisa do telemóvel, da internet, está a afastar. A juventude está na tela. Pode ficar na tela, mas o deslumbramento do ao vivo é único", refletiu Roberto Medina.

"O mundo está complexo, há muita raiva de um lado e do outro. Juntar tribos diferentes, alegres, num momento caótico do mundo, é um privilégio. Sinto-me privilegiado por poder estar a fazer isso aqui e em Portugal".

O Rock in Rio deste ano, na cidade que lhe dá nome, termina no dia 13 de setembro e atrai mais de 700 mil pessoas.
Segundo a organização, desde a primeira edição, o Rock in Rio já gerou mais de 297,6 mil empregos diretos e indiretos. Pelas Cidades do Rock, desde 1985, já passaram mais de 12,3 milhões de visitantes, que assistiram a mais de 4.667 artistas em 141 dias de concertos.

Para lá da música e do entretenimento, o festival investiu, com os diversos parceiros, mais de 118 milhões de reais (quase 20 milhões de euros) em diferentes projetos de sustentabilidade, educação, música e florestas. Só na Amazónia, foram plantadas mais de quatro milhões de árvores.

A marca foi pioneira em ter a certificação ISO 20121 – Eventos Sustentáveis, é neutra em carbono desde 2006 e trabalha com metas para 2030 alinhadas com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

Em 2024, o Rock in Rio foi considerado património cultural imaterial do estado do Rio de Janeiro.
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