Não se ensina Literatura, ensina-se a ler - Professores

Lisboa, 27 Nov (Lusa) -- Os professores Fernando Pinto do Amaral, Fernando J.B. Martinho e Arnaldo Saraiva estão de acordo: não se ensina literatura, ensina-se a ler, defenderam quarta-feira em Lisboa, numa sessão do I Congresso Internacional Fernando Pessoa sobre "Ensinar Pessoa".

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"E ensinar a ler exige algum trabalho", disse Arnaldo Saraiva, fundador do Centro de Estudos Pessoanos em 1976 (extinto uma década depois por falta de fundos), e que foi o primeiro académico a utilizar o termo "pessoano" para designar os especialistas e os trabalhos sobre a obra de Fernando Pessoa, que até aí eram conhecidos como "pessoistas" ou "fernandinos", "duas palavras horríveis".

Fernando J.B. Martinho, ensaísta, poeta e leitor de português nas Universidades de Bristol e Santa Barbara, na Califórnia, criou a cadeira de Estudos Pessoanos na licenciatura de Estudos Portugueses da Faculdade de Letras de Lisboa e afirma: "Professor é realmente a coisa que mais gostei de ser".

Ao criar essa cadeira, em reacção a uma abordagem redutora e "a uma certa banalização de Pessoa", que motivou em meados da década de 1980 um manifesto de jovens poetas portugueses intitulado "Tanto Pessoa já Enjoa", o seu objectivo era "dar um curso o mais abrangente possível, incluir no programa as diversas facetas de Pessoa".

E, como "uma cadeira como essa não se pode ensinar sem textos literários de apoio", resolveu começar "por dar o Pessoa por interposta pessoa", José Saramago, com o romance "O Ano da Morte de Ricardo Reis", que continua a considerar "o maior romance de Saramago" e que tem a particularidade "de o autor escolher ficcionar uma figura já de si ficcional".

"Ensinar literatura é uma tarefa impossível. Mas, sendo impossível, não quer dizer que a gente não faça um esforço", observou.

Assim, decidiu que "devia utilizar textos publicados por Pessoa em vida, o que pode ser uma atitude um pouco polémica, mas o Pessoa não foi um escritor póstumo, publicou muito mais em vida do que agora muitos pensam", desde textos críticos e textos teóricos a "O Livro do Desassossego", "Mensagem", "O Marinheiro", que considera "uma peça assombrosa de Pessoa", e "O Banqueiro Anarquista", bem como "a inevitável heteronímia".

O último ponto do programa da cadeira foi reservado "aos herdeiros de Pessoa", por entender que "a melhor recepção dos textos de um autor é a recepção activa, ou seja, a recepção de que resulta outro texto".

"A melhor leitura da obra de Pushkin foi `Anna Karenina`, do Tolstoi", exemplificou.

Um dos textos dos herdeiros literários de Pessoa intitulava-se "Apócrifo Pessoano" - "um texto paródico que brinca com os coelhos a saltar continuamente da cartola de Pessoa, que é a arca", descreveu, antes de o ler -- da autoria do seu ex-aluno Fernando Pinto do Amaral, o terceiro elemento da mesa-redonda, que deu a cadeira de Estudos Pessoanos durante dois anos depois de Fernando J.B. Martinho se ter jubilado.

"Ainda bem que existe a cadeira de Estudos Pessoanos, porque realmente o Pessoa é uma galáxia à parte, incluí-lo em `ismos` é sempre muito redutor", sublinhou Fernando Pinto do Amaral.

"Os alunos -- estou a falar dos bons alunos -- tendem a criar uma imagem pessoal do Pessoa, dizem `o meu Pessoa é que é, as outras leituras não valem`, o que é bom e prova que ele é um grande autor, porque isto só acontece com grandes autores", defendeu.

Nas aulas, "tudo o que estava associado a uma ideia estereotipada do Pessoa eu tentava desconstruir: a ideia de que Pessoa "era um poeta frio e cerebral, que se opunha à emoção na poesia". Ora ele escreveu "Eu quero sentir tudo de todas as maneiras", a ideia feita da heteronímia como fragmentação da personalidade, "uma espécie de Dr. Jekyll e Mr. Hyde, mas neste caso, Dr. Reis e Mr. Campos... Acho que é esse o papel do professor", frisou.

Fernando Pessoa -- prosseguiu - "encarava a vida não de uma forma rígida, dogmática, em compartimentos estanques. Há nele uma enorme fluidez, que tem que ver com o sonho, a vida sonhada e a vida vivida que se interpenetram. E os sonhos podem ter mais intensidade do que a realidade, é tudo uma questão de acreditarmos nas coisas. A diferença entre sonho e realidade somos nós que a fazemos, tudo tem que ver com a importância que damos às coisas".

"A relatividade das coisas - argumentou - é importante por causa da dimensão humana do Pessoa. `Ele não é uma simples máquina literária`, escreveu Eduardo Lourenço em `Fernando, Rei da Nossa Baviera`, `o eu como ficção não é uma trouvaille literária` -- ele não chegava um dia a casa a dizer: `ora, o que é que eu vou inventar hoje para me tornar interessante?`".

"Há um mergulho, uma descida aos infernos de si próprio em Pessoa que não existe noutros autores", sustentou ainda Fernando Pinto do Amaral, acrescentando que agora até já se sabe que "sentir e pensar não são processos assim tão diferentes", porque partem de "sinapses, junções entre dois neurónios, e o fundamental é a energia que passa por ali".

ANC.


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