Netas de Almada Negreiros homenageiam portugueses de Lille com jardim

Um jardim criado para homenagear a comunidade portuguesa em Lille, França, é um dos projectos da autoria das arquitectas Catarina e Rita Almada Negreiros, cujo trabalho tem sido reconhecido com vários prémios internacionais.

Agência LUSA /

Netas do artista Almada Negreiros, as duas arquitectas conquistaram recentemente o segundo lugar num concurso internacional da Arquitecture Foundation, em Londres, onde concorreram 200 candidatos de todo o mundo.

O jardim na região de Lille foi inaugurado no Verão passado, no âmbito das celebrações da Capital Europeia da Cultura 2004, explicou, em declarações à Agência Lusa, Rita Almada Negreiros.

A cidade francesa quis recuperar uma antiga zona de indústria pesada de extracção de minério junto ao rio Deule, que se encontrava bastante degradada.

Abriu um concurso para a criação de um parque de dois mil hectares onde uma parte seria preenchida com sete jardins temáticos, dedicados às comunidades de imigrantes que ali tinham trabalhado.

"Conseguimos ganhar o projecto para a criação do Jardim Ibérico, cujo nome acaba por não corresponder à realidade porque soubemos que a comunidade ibérica era afinal totalmente composta por emigrantes portugueses de Braga", relatou a arquitecta.

No Jardim Ibérico do Parque de La Deule, partindo das origens minhotas dos emigrantes portugueses, a equipa procurou inspirar-se nas tradicionais quintas aristocráticas daquela região.

A ideia era "recriar uma espécie de síntese de um jardim privado nesta região", dando-lhe cores ligadas a Portugal, nomeadamente o ocre no chão e um painel de azulejos onde o encarnado e o branco estão em destaque.

"Foi um desafio adaptar este conceito à topografia francesa, mais plana, com demasiada água, um céu cinzento e Invernos frios", recorda a arquitecta.

Depois de inaugurado o jardim, as arquitectas portuguesas conseguiram conquistar o segundo lugar num concurso internacional para a construção da nova sede da Architecture Foundation, em Londres.

Também conseguiram o terceiro lugar num concurso internacional para o embelezamento de uma rua do bairro de Islington, em Londres, ao qual concorreram 78 candidatos.

Admitem que a obra pictórica e escrita do avô, Almada Negreiros, as acompanhou sempre, mas preferem dizer que a influência está mais nos "genes artísticos e criativos" herdados do que propriamente na arquitectura, "a única área onde ele não fez nada".

Apesar de viverem e trabalharem em Portugal, procuram participar nos concursos internacionais onde "é mais fácil entrar com uma ideia, sem ter de apresentar o projecto quase totalmente acabado, como acontece a nível nacional".

As arquitectas pertencem à a-Graft, um grupo internacional de arquitectos, designers, planeadores urbanos e arquitectos paisagistas oriundos de Lisboa, Barcelona, Milão, Paris e Tóquio, que trabalham em rede para trocar ideias e experiências.

Através da sua experiência no estrangeiro foram-se apercebendo das diferentes situações da arquitectura no mundo, e em particular na Europa: "Somos talvez o único país europeu onde a profissão não é devidamente reconhecida e protegida. Lá fora só os arquitectos podem assinar os projectos. Aqui, desde desenhadores até engenheiros de minas o podem fazer", lamentou.

Rita Almada Negreiros nasceu em Lisboa em 1969, é arquitecta e designer urbana, tendo-se formado na Universidade Lusíada. Trabalhou com os arquitectos Jean-Michel Wilmotte em Paris, e com Jordi Castel em Barcelona.

A irmã, Catarina Almada Negreiros nasceu em 1972 e formou-se em arquitectura na Faculdade de Arquitectura de Lisboa, continuando os estudos superiores em Harvard, nos Estados Unidos.

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