No teatro da Cornucópia "paira no ar a possibilidade de acabar"
Lisboa, 27 fev (Lusa) - Os responsáveis do Teatro da Cornucópia, em Lisboa, estão preocupados com o futuro da companhia, que completa 40 anos em 2013, e admitem que "paira no ar a possibilidade de acabar", como disse Luís Miguel Cintra, um dos fundadores.
"Estamos à espera do resultado dos concursos, não sei qual será o apoio, mas, mesmo que a Cornucópia tenha o subsídio máximo, o que duvido, só nos permite a manutenção da casa que não tem atores, e não permite gastos nenhuns com os elencos", disse à Lusa Luís Miguel Cintra.
"Os subsídios estão a limitar a liberdade. [O sistema] é mais limitativo da liberdade do que existir uma censura", defendeu Cintra.
Sobre os atuais constrangimentos financeiros, Cintra afirmou que, neste momento, só pode fazer peças "com pouca gente e que não impliquem gastos de produção".
"Eu não ganho cada vez que duplico funções [ator e encenador], ganho sempre o mesmo e ganho uma miséria", afirmou, acrescentando que é o único ator fixo da companhia.
Os atores que são convidados a trabalhar na Cornucópia "ganham muito pouco, e são obrigados a fazer outras coisas".
O ator e encenador argumentou que a Cornucópia "tem provas dadas". "Noutro país, que não em Portugal, estaríamos na situação, teríamos um teatro à nossa disposição", acrescentou.
Cintra afirmou que, para apresentar alguns espetáculos, foi "preciso fazer milagres". "Fizemos omeletes sem ovos", rematou.
Em relação aos subsídios a atribuir pela Direção-Geral das Artes, Luís Miguel Cintra sublinhou: "Só nos permite ficar aqui à espera que os anos passem sem fazer nada".
O encenador não cruza braços e afirmou que "há que procurar apoios e estratégias", e aponta caminhos para fazer teatro: "O futuro passa pelas parcerias; há as coproduções que, claro está, têm as suas contingências".
No próximo ano há já a hipótese de "uma coprodução com o [Teatro Municipal] S. Luiz e outra com os dois Nacionais [D. Maria II e S. João]".
O encenador deu ainda conta de "uma oferta da Câmara de Lisboa, sem se ter pedido nada, uma prenda, quando se faz 40 anos", mas nada foi ainda concretizado.
Em março, a Cornucópia vai ao Nacional São João, no Porto, "uma digressão que vai permitir cobrir os ordenados", disse o encenador.
No palco portuense, a Cornucópia vai apresentar "Os desastres do amor", de 15 a 24 de março.
Trata-se de uma adaptação e colagem de peças em um ato ou diálogos, de Pierre de Marivaux, com encenação de Luís Miguel Cintra e cenário e figurinos de Cristina Reis.
O elenco é constituído por José Manuel Mendes, Luís Lima Barreto, Luis Miguel Cintra, Nuno Nunes, Rita Durão, Rita Blanco, Sergio Adillo, Sofia Marques, Teresa Madruga e Vítor de Andrade
No final do ano, Cintra conta apresentar "uma peça com poucos atores".
O Teatro da Cornucópia, fundado em 1973 por Luís Miguel Cintra e Jorge Silva Melo, é atualmente dirigido por Cintra e Cristina Reis. Desde 1975, a companhia ocupa o Teatro do Bairro Alto, ao Príncipe Real, um antigo Centro de Amadores de Ballet, que foi cedido, na época, pela Secretaria de Estado da Cultura.
Luís Miguel Cintra reconhece que moldou o espaço ao interesse da companhia e que esta base "foi essencial para o crescimento e definição da companhia" com oficinas, um guarda-roupa e uma sala de ensaios, além da sala de espetáculos e os espaços administrativos.
"Prezo esta sala, porque pudemos crescer à nossa medida e decidir a organização do tempo e do espaço", rematou.