"Normalizar um genocídio". Jerry Seinfeld estará a causar incómodos no festival Commedia a La Carte Fest
A atriz Inês Aires Pereira anunciou que não vai participará no festival, assumindo solidariedade para com a Palestina e recusando "normalizar um genocídio". Jerry Seinfeld, um dos convidados, defende Israel, refere-se à Palestina como não existente e compara os movimentos pró-palestinianos ao Ku Klux Klan.
A atriz Inês Aires Pereira anunciou hoje que não vai participar no Commedia a La Carte Fest, em Lisboa, assumindo explicitamente a solidariedade para com a Palestina e recusando "normalizar um genocídio".
Inês Aires Pereira recorda que "um dos nomes" convidados para integrar a programação do novo festival - sem mencionar diretamente Jerry Seinfeld - "defende insistentemente ideias e atos" que considera "indefensáveis".
A 1.ª edição do Festival Internacional de Humor de Lisboa Commedia a La Carte Fest vai acontecer entre 29 de outubro e 1 de novembro e tem como cabeça de cartaz o humorista norte-americano Jerry Seinfeld, que tem assumido publicamente o seu apoio a Israel.
A estreia do humorista em Portugal - popularizado pela série televisiva "Seinfeld", que cocriou e escreveu com Larry David, entre 1989 e 1998 -- tem sido alvo de contestação e apelos ao boicote, sobretudo nas redes sociais.
"Não podemos relativizar ou normalizar um genocídio", vinca Inês Aires Pereira, assumindo a "difícil decisão", mas adiando o espetáculo para "oportunidades mais felizes".
A fase mais recente do conflito israelo-palestiniano foi desencadeada pelos ataques do movimento extremista palestiniano Hamas em 07 de outubro de 2023, no sul de Israel, que causaram cerca de 1.200 mortos e mais de duas centenas de reféns.
A resposta do governo israelita, apoiado pelos Estados Unidos, já causou, desde então, mais de 73.000 pessoas mortos na Faixa de Gaza, segundo dados do governo do enclave palestiniano, considerados fidedignos pelas Nações Unidas.
"Levo muito a sério que tantas pessoas comprem bilhetes para assistir, mas há princípios mais importantes a ter em conta", justificou Inês Aires Pereira, que iria mostrar o espetáculo "Namasté" a 29 de outubro.
O festival já sofreu três outros cancelamentos, mas dois não foram justificados e o terceiro aludiu apenas implicitamente à causa palestiniana.
Numa publicação na rede social Instagram, a dupla de comediantes Cebola Mol, que junta Eduardo Madeira e Filipe Homem Fonseca, juntaram à sua fotografia a imagem de uma fatia de melancia, fruto-símbolo que partilha as cores com a bandeira da Palestina, para anunciar o cancelamento do seu espetáculo no festival.
"Celebraremos justiça, liberdade e alegria numa próxima oportunidade", disseram.
Já antes, o espetáculo "Tributo Pop", que juntaria Carolina Deslandes, Tatanka e Bárbara Tinoco, e o concerto do Conjunto Cuca Monga tinham sido cancelados, mas sem justificação.
Na plataforma digital de bilhética BlueTicket é referido que o concerto do Conjunto Cuca Monga foi cancelado "por razões alheias à organização" e o "Tributo Pop" surge apenas cancelado.
A Lusa contactou o Conjunto Cuca Monga e Carolina Deslandes, que se escusaram a fazer comentários e tentou ainda contactar Bárbara Tinoco e Tatanka, mas até ao momento sem sucesso.
Além de Seinfeld, o cartaz da 1.ª edição do MEO Commedia a La Carte Fest - que pretende reunir "o melhor da comédia, teatro, música, performance, `storytelling` e cultura pop" - inclui espetáculos de Herman José, Clarice Falcão, Matilde Breyner, Pedro Tochas e o quarteto César Mourão, Vasco Palmeirim, Pedro Ribeiro e Vera Fernandes, com "Rebenta a Bolha".
Os espetáculos dividem-se entre o Coliseu dos Recreios, o Campo Pequeno, o Cinema São Jorge e o Capitólio.
O festival, criado pelo grupo de humor de improviso Commedia a La Carte, é coproduzido pela Last Tour e Aquele Abraço.