Nova geração de realizadores está a vencer indiferença do público aos filmes portugueses
Uma nova geração de realizadores portugueses está a ganhar visibilidade pública, conquistando reconhecimento e prémios internacionais, e começa a vencer a tradicional indiferença dos espectadores em relação ao cinema nacional.
Apesar de mais de metade dos 43 filmes portugueses estreados desde 2005 não ter ido além dos três mil espectadores e apenas 12 terem ultrapassado os dez mil, "O Crime do Padre Amaro", de Carlos Coelho da Silva (2005) foi visto por 380 mil espectadores, e o "Filme da Treta", de José Sacramento (2006), por cerca de 280 mil pessoas.
Ainda de acordo com dados do Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA), também as longas-metragens "Alice", de Marco Martins, e "Coisa Ruim", de Tiago Guedes e Frederico Serra, ambos de 2005, rondaram os 30 mil e foram premiados em Portugal e no estrangeiro.
A elevada afluência de público nestes filmes contraria a habitual indiferença nacional pelo cinema português, que se traduz em poucos espectadores nas salas de cinema, e, em consequência, uma curta vida de exibição.
Mas foi nos géneros e formatos menos conhecidos do público - a curta-metragem, a animação e o documentário - que o cinema português feito por uma nova geração de realizadores ganhou maior visibilidade nestes últimos anos, nomeadamente, com a conquista de prémios em festivais nacionais e estrangeiros.
Foram os casos do documentário "Ainda há Pastores?", de Jorge Pelicano, da curta-metragem de ficção "Rapace", de João Nicolau, e da curta-metragem de animação "História Trágica com Final Feliz", de Regina Pessoa, que contabilizou 45 prémios ao passar por 150 festivais.
Jorge Pelicano fez "Ainda há Pastores?" por "conta própria e risco", sem apoios oficiais, e com este primeiro documentário - rodado há cinco anos e estreado na televisão em 2006 - quis prestar uma homenagem a "uma das profissões mais duras que existem e que está em progressivo desaparecimento em Portugal".
Este retrato do interior de Portugal, no qual Jorge Pelicano dá a conhecer o quotidiano de um pastor que vive isolado na Serra da Estrela, participou em festivais nacionais e em Espanha, Brasil, Itália, Grécia, recebeu quatro prémios e já foi visto por milhares de pessoas em exibições realizadas por todo o país, em cine-teatros, escolas e associações.
Os prémios que tem recebido "apesar das dificuldades de financiamento do projecto e da sua divulgação, constituem um grande incentivo para toda a equipa", referiu à Lusa o realizador, 30 anos, repórter de imagem de televisão, actualmente a fazer um mestrado em comunicação e jornalismo.
Formato ainda com pouca expressão nas salas comerciais, o documentário "tem tido grande evolução e está na moda", sobretudo depois dos filmes do norte-americano Michael Moore e, mais recentemente, o filme "Uma Verdade Inconveniente" sobre questões ambientais, apresentado pelo ex-vice-presidente dos Estados Unidos Al Gore.
Mas, para Jorge Pelicano, o principal factor do interesse crescente em fazer cinema "é o acesso às novas tecnologias. Há muitos jovens com criatividade e dinâmica que estão a fazer trabalhos interessantes. Faltam é mais apoios".
O que impele Jorge Pelicano a continuar no documentarismo é um sentimento "de missão". Tal como fez no primeiro documentário, no próximo trabalho quer retratar o despovoamento do interior do país, essencialmente no distrito de Bragança, e o impacto desta realidade na vida das comunidades.
João Nicolau, 32 anos, foi outro realizador português muito premiado em Portugal e no estrangeiro pela curta-metragem de ficção "Rapace" (produtora O Som e a Fúria). Competições internacionais em Vila do Conde, Milão, Belfort e Réus galardoaram este filme.
Sobre os efeitos que gerou o sucesso da obra, foi peremptório: "Ajudou a continuar a fazer cinema, que é o que me interessa realmente, porque continua a ser difícil em Portugal, sobretudo na área da cultura".
Admite que o maior acesso ao vídeo "veio permitir outras formas de produção, mas chegar ao público é diferente", mas observa que "Rapace", apesar de ter sido muito premiado em festivais, "teve muito pouco público em sala".
"É certo - assinala - que existem novas pessoas a fazer filmes. Sempre houve, mas agora têm mais visibilidade", nomeadamente através dos festivais de cinema.
Contudo, "não se pode dizer que haja um novo cinema português porque não há um conjunto de filmes com as mesmas características. Nesse sentido, não se pode dizer que exista um novo cinema português. Talvez daqui a alguns anos", opina o realizador de "Calado Não Dá" (a sua primeira obra, de 1999).
Para João Nicolau, que colaborou com João César Monteiro, o público português continua a ter "uma relação mítica" com o cinema nacional - "não gosta mas também não conhece"- , e lamenta que "só se fale de filmes quando há uma lógica de prémios".
A seguir a "Rapace", o realizador irá aventurar-se na primeira longa-metragem, que classifica como um filme mutante, "porque começa disfarçado numa crónica lisboeta e desagua num filme de piratas".
Regina Pessoa, da área da animação, é outra realizadora portuguesa que se destacou no último ano com a curta-metragem "História Trágica com Final Feliz", cuja produtora portuguesa Ciclope Filmes (é um co-produção com França e Canadá) classifica já como "o filme português mais premiado de sempre".
Desde 2005, quando se estreou no Festival de Annecy - o mais importante certame de cinema de animação do mundo, onde conquistou o Grande Prémio do júri - contabilizou até hoje 45 prémios e a exibição em 150 festivais em Portugal e no estrangeiro.
O sucesso alcançado pela curta-metragem - que narra a história de uma menina "diferente" rejeitada pela intolerante comunidade onde vive - traduziu-se no seu lançamento em DVD, que já ultrapassou uma dezena de reedições.
Quando se estreou nos cinemas portugueses, em Março deste ano, "História Trágica com Final Feliz" já contava com mais de trinta prémios, esteve na lista dos candidatos finalistas para os Césares do cinema francês, e na lista de dez filmes de onde saíram depois os cinco nomeados para os óscares da academia norte-americana de cinema.
Regina Pessoa "não esperava este sucesso", e não esquece as dificuldades que teve de enfrentar para obter apoios ao projecto, situação que se repetiu com o seu novo trabalho "Kali - O Pequeno Vampiro", ainda numa fase inicial de criação.
"Nunca consegui um apoio à primeira tentativa nos concursos (do ICA). Mas insisti e consegui, e o mesmo sucedeu com o novo projecto", relatou a realizadora.
O sucesso da curta-metragem de animação teve um impacto a vários níveis na vida de Regina Pessoa: "A nível internacional sinto um maior respeito pelo meu trabalho, em Portugal. Curiosamente, parece que muitas pessoas não viram o filme mas já ouviram falar, o que também é bom".
Continua a dedicar-se a tempo inteiro a fazer filmes de animação e surgiram mais convites para dar conferências em universidades, nomeadamente no Reino Unido, Taiwan e Austrália.
Sobre o interesse por este género do cinema, a realizadora considera que "cada vez se faz mais animação em Portugal porque há também mais formação disponível".
"Além disso, hoje, com uma câmara de vídeo doméstica e um computador faz-se facilmente um filme", observou a criadora, que, no seu trabalho, usa a gravura, um processo técnico moroso.
Por considerar que a "História Trágica..." "vale a pena", Regina Pessoa decidiu alargar o seu acesso ao público noutro suporte e vai colocá-la num livro, baseado nos desenhos originais do filme. Será lançado com o DVD, a 21 de Setembro, na Casa da Animação, no Porto.