Novas instalações da Revista Brotéria vão ter programação e abrir-se à cidade
A revista Brotéria, com mais de cem anos, muda esta semana de instalações, de um palacete à Lapa, para um "espaço amplo", no Bairro Alto, em Lisboa, que vai ser "aberto à cidade, ágil, com uma programação variada", segundo a direção.
Publicação "destacada no mundo intelectual erudito e católico", como afirma o padre Francisco Sassetti Mota, da direção, a revista passa a ocupar um edifício na rua S. Pedro de Alcântara, próximo da Igreja de S. Roque, que já foi a "casa-mãe" dos Jesuítas, ordem religiosa responsável por este título.
O edifício, antigo palácio dos condes de Tomar, que já albergou a Hemeroteca Municipal, é propriedade da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML), de quem partiu a iniciativa de colocar "a revista no coração da cidade", e transformar o local num espaço aberto a quem passa, com livraria, galeria de arte, cafetaria.
"Toda a visão inicial deste projeto pertence à Santa Casa, que nos pediu este trabalho de dinamização cultural", sublinhou Francisco Sassetti Mota à agência Lusa. Uma centralidade assumida pelos jesuítas, em troca do "sossego e do silêncio".
"Trocamos a vida pacata para estar junto das pessoas, das suas preocupações e necessidades, daqueles que queremos procurar e a quem queremos servir", afirmou Sassetti Mota, falando da saída das instalações na rua Maestro António Taborda, numa zona residencial do eixo Estrela/Lapa/Janelas Verdes, em Lisboa, para o movimentado cruzamento de São Pedro de Alcântara com o Largo Trindade Coelho, a calçada da Glória e a Travessa da Queimada, onde o Bairro Alto se junta à rua da Misericórdia, na proximidade do Chiado.
"Da nossa programação farão parte seminários, congressos e `workshops`", e haverá "uma atenção muito grande a todas as questões que têm que ver com as preocupações dos nossos parceiros, entre eles a SCML", disse à Lusa.
O edifício, sob a égide dos jesuítas, vai albergar uma galeria de arte, cuja curadoria "terá em conta o que acontece na Brotéria", um café, a funcionar entre as 10:00 e as 18:00, e uma livraria, a Snob, que subirá ao Chiado, vinda do bairro de Santos.
Sobre a escolha da Snob, fundada em Guimarães, em 2013, e que depois passou à antiga sede da Sociedade Guilherme Cossoul, a Santos, em Lisboa, antes de chegar às atuais instalações na rua Nova da Piedade, Sassetti Mota disse que se deveu ao facto de ter edição própria "e de dinamizar um conjunto de eventos culturais, como grupos de leitura e apresentação de livros, entre outros".
O edifício da Brotéria vai ainda ser casa de seis padres jesuítas, que colaboram nas atividades da revista, acrescentou o responsável.
Sobre o facto de as instalações serem "do outro lado da rua", em frente à igreja de S. Roque, antiga "casa-mãe" da Companhia de Jesus, o padre jesuíta Sassetti Mota afirmou que este "regressar a casa, tem um sentir nostálgico, com tudo o que isso implica".
Estar no centro da cidade exige "construir a história, que não é feita só de atos heroicos, mas também de coisas muito pequeninas, e este tornar ao centro da cidade reforça a tradição, mas também nos obriga a construir a História com uma linguagem nova que é a dos tempos presentes", afirmou.
A revista Brotéria, fundada em 1902 como uma revista de Ciências Naturais, nomeadamente dedicada à Botânica, aborda, atualmente, áreas de Filosofia, História, Humanidades e Literatura, e tem uma tiragem de 1.1000 exemplares.
Se a nova localização "tem a vantagem de nos colocar no coração da cidade, a generalidade de uma cidade como Lisboa não mantém viva a ligação a uma revista como a Brotéria", esclarece Sassetti Mota.
"Mas, para nós, o que significa [esta mudança] é a possibilidade de trazer para públicos novos, vozes novas... [Acentuar] esta relação que a revista há muito mantém com os problemas do dia-a-dia, as pressões reais das pessoas que habitam Lisboa", defendeu.
O padre jesuíta salientou à Lusa "a confiança" que instituições, "grandes e calejadas" como a Câmara de Lisboa, a Fundação Luso-Americana ou o Boston College têm na revista, entre outras com quem a Brotéria tem parcerias, que reconhecem a sua importância "para o país".
A Brotéria, cujo nome é uma homenagem ao naturalista português Félix de Avelar Brotero (1744-1829), ligada outrora ao Colégio de S. Fiel, é atualmente dirigida pelo padre jesuíta António Júlio Trigueiros.
O número mais recente da revista, publicado em dezembro, traz um ensaio sobre "O mercado do livro em Portugal", assinado por Henrique Mota, artigos relacionados com Bioética, de António Barbosa de Abreu ("A Bioética e a Lei -- Bases para uma decisão médica") e de Walter Osswald ("Um menino sem rosto"), dois estudos de caso sobre "O Tempo na Antropologia", por Henrique Luís Gomes de Araújo, um texto de José de Souto Moura sobre Álvaro Pires de Évora, em exposição no Museu Nacional de Arte Antiga, e uma evocação do historiador jesuíta José Vaz de Carvalho, que morreu no final do ano passado.
Uma reflexão sobre o modelo de "Crescimento económico", assinada por Nuno Alvim, que contrapõe a obrigação de crescer, como expressão da falta de liberdade económica, à vantagem de crescer, como escolha das pessoas, consta igualmente dos ensaios da revista.
Entre outras produções e iniciativas em cartaz, este número da Brotéria fala ainda sobre o filme "Vitalina Varela", de Pedro Costa, as séries televisivas "The Crown" e "Brooklyn 99", a exposição "Art on Display. Formas de expor 1949-69", na Fundação Calouste Gulbenkian, e a peça "Vemo-nos ao nascer do dia", de Zinnie Harris, que os Artistas Unidos levaram ao Teatro sem Fios da Antena 2.
Quanto ao antigo palacete na rua Maestro António Taborda, à Pampulha, "vai ser arrendado", disse à Lusa Sassetti Mota.