Novo filme de Margarida Cardoso, da guerra ao passado colonial, estreia-se hoje
A longa-metragem "Yvone Kane", da realizadora portuguesa Margarida Cardoso, sobre o reencontro de mãe e filha num país africano imaginário, marcado pela guerra e por um passado colonial, estreia-se hoje, em cinco cidades portuguesas.
Onze anos depois da estreia de "A costa dos murmúrios", a partir do romance homónimo de Lídia Jorge, Margarida Cardoso voltou a trabalhar com a atriz Beatriz Batarda para "Yvone Kane", a segunda longa-metragem de ficção, que é um novo olhar feminino sobre África, sobre a guerra e sobre a ideia de perda.
"Yvone Kane" teve estreia mundial no verão passado, na Fundação Calouste Gulbenkian, já foi exibido em dois festivais e valeu a Beatriz Batarda um prémio de melhor atriz.
Escrito por Margarida Cardoso, o filme tem como fio condutor a história de Yvone Kane, uma ex-guerrilheira e ativista política que defendeu a independência do seu país, mas a narrativa principal da ficção é a relação entre duas mulheres adultas, mãe e filha.
A morte de Yvone Kane, em circunstâncias estranhas, motivou uma viagem de Rita (Beatriz Batarda) a um país africano sem nome, com marcas da guerra, onde reencontra a mãe, Sara (Irene Ravache), médica que privou com a guerrilheira.
Rita viaja para fazer o luto da filha, que morreu afogada, enquanto Sara se confronta com a morte, por saber que está doente.
Em declarações à agência Lusa, quando o filme se estreou no verão passado, Margarida Cardoso contou que "Yvone Kane" é "a história de uma mãe e de uma filha", destacando que "política e memória e História estão por detrás dessa história", feita de personagens como fantasmas que estão sempre em busca de algo.
O filme foi rodado em Portugal e em Moçambique, mas Margarida Cardoso não o situa num lugar específico.
Por não ter nome, "torna-se mais metafórico em relação a uma série de acontecimentos, como a perda de relação ideológica com África, que é um bocadinho isso de que o filme trata - pessoas que se empenharam muito numa luta ideológica e na defesa de uma ideia para um país novo e livre e que hoje são uma espécie de fantasmas nestes países".
Além da atriz portuguesa Beatriz Batarda e da atriz brasileira Irene Ravache, o filme conta com os atores Gonçalo Waddington, Mina Andala, Samuel Malumbe, Herman Jeusse, Iva Mugalela, Maria Helena, Mário Mabjaia, Francilia Jonaze, Adriano Luz, Anne Kristine, Rosa Vasco e João Manja.
O filme teve apoio financeiro de Portugal e do Brasil.
A propósito da estreia de "Yvone Kane", é reeditado em DVD o filme "A costa dos murmúrios".
Além daquelas duas longas-metragens de ficção, Margarida Cardoso é autora de várias curtas-metragens e documentários, entre os quais "Kuxa Kanema", sobre a produção de cinema em Moçambique, em particular a partir da declaração da independência, e "Natal 71", sobre a guerra colonial e os militares portugueses que nela combateram.