Novo livro traz dimensão poética e voz "insubmissa" de Alda Espírito Santo

Novo livro traz dimensão poética e voz "insubmissa" de Alda Espírito Santo

A dimensão literária de Alda Espírito Santo, cuja poesia conjugou resistência anticolonial, memória e afeto, é um dos propósitos da coletânea de ensaios que será lançada sexta-feira, em Lisboa, segundo a investigadora Inocência Mata.

Lusa / Adicionar como fonte informativa
Foto: Andreia Martins - RTP

Intitulada "Alda Espírito Santo: Poéticas do Solo Sagrado", a obra publicada pela Rosa de Porcelana Editora, surge no ano em que se celebra o centenário do nascimento da escritora são-tomense, e reúne estudos académicos, procurando dar visibilidade a uma faceta menos conhecida de uma figura que marcou também a luta nacionalista e a vida política de São Tomé e Príncipe.

"Ela não é tão conhecida como poetisa", afirmou Inocência Mata, em entrevista à Lusa, explicando que o livro nasceu da vontade de dar a conhecer a obra literária de Alda Espírito Santo, para além do seu percurso político.

Alda Espírito Santo foi uma das figuras do nacionalismo são-tomense e desenvolveu a sua atividade política no interior da então colónia portuguesa, num contexto de repressão. Para Inocência Mata, essa condição ajuda a compreender as características da sua escrita, em que a denúncia do colonialismo nem sempre surge de forma explícita.

"A ideia é ver como é que a poesia de Alda Espírito Santo transmitia uma militância muito sub-reptícia. E também em relação à condição feminina, em relação à ilha, à cultura", afirmou.

Todo o seu discurso poético exalta a luta do povo são-tomense e as tradições culturais do seu país. É a autora do hino nacional e de várias obras literárias, em que se destacam "Mataram o Rio da Minha Cidade", "Mensagens do Solo Sagrado" e "Cantos do Solo Sagrado", entre outras.

Todos os anos, desde a independência de São Tomé e Príncipe, uma voz feminina recita "Trindade", um dos poemas com que a escritora imortalizou o Massacre de Batepáde, em 1953.

"A minha leitura de Alda Espírito Santo faz-se dessa ideia que é realmente uma poesia de libertação, anticolonialista, nacionalista", disse a investigadora, mas também uma "poética do afeto", construída a partir dos lugares, das pessoas, das memórias e das experiências do quotidiano.

A poesia de Alda Espírito Santo recorria, assim, a uma linguagem aparentemente lírica para abordar questões sociais e políticas. No poema "Avó Mariana", por exemplo, a história de uma mulher levada de Angola para trabalhar como contratada nas roças de São Tomé expõe as consequências de um sistema que limitava a liberdade e o regresso à terra de origem.

"É um poema muito lírico, mas de um lirismo social e de um lirismo político", observou Inocência Mata, sublinhando que, no caso da escritora são-tomense, a resistência se expressava muitas vezes de forma mais subtil do que na poesia de autores que puderam escrever fora dos territórios colonizados.

A coletânea acompanha diferentes dimensões da escrita de Alda Espírito Santo, da consciência anticolonial à condição feminina, passando pela memória, a ancestralidade e as tensões do período pós-independência. Reúne ensaios de investigadores portugueses, brasileiros e são-tomenses, de áreas como a literatura, a história e a antropologia.

O título dialoga com "É Nosso o Solo Sagrado da Terra", primeiro livro de poesia de Alda Espírito Santo, publicado em 1978, depois da independência de São Tomé e Príncipe. Para Inocência Mata, essa escolha permite recuperar a dimensão nacionalista da escritora, mas também acompanhar a evolução da sua escrita e o desencanto que emerge em obras posteriores, como "Mataram o Rio da Minha Cidade".

Inocência Mata defende que a poesia da autora deveria passar a integrar a leitura obrigatória nas escolas, considerando que Alda Espírito Santo, a par com Francisco J. Tenreiro, são os nomes "maiores do século XX" da cultura são-tomense.

Como organizadora desta obra, destaca ainda a dimensão afetiva da poesia como forma de construção da pátria, através da representação dos espaços de sociabilidade, das mulheres, das crianças e das vivências quotidianas da ilha.

"Como por trás do afeto, dessa memória, do vivido, deste quotidiano, havia uma voz insubmissa", resumiu.

O lançamento de "Alda Espírito Santo: Poéticas do Solo Sagrado", organizado por Inocência Mata, está marcado para sexta-feira, 16 de outubro, no Centro Cultural de Cabo Verde, em Lisboa.

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