O escritor António Alçada Baptista morreu aos 81 anos

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O livro "A cor dos Dias" foi a sua última publicação
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António Alçada Baptista faleceu ao princípio da tarde deste domingo, vítima de doença cardíaca. O escritor tinha 81 anos.

Nascido na Covilhã em 1927, António Alçada Baptista licenciou-se em Direito, mas foi como escritor e editor que ganhou notoriedade.

Entre 1957 e 1972, foi director da Moraes Editora.

Alçada Baptista dirigiu ainda o jornal "O Dia", foi um dos fundadores da revista "O Tempo e o Modo" e presidiu ao Instituto Português do Livro.

Na sua obra literária - 14 títulos que vão do ensaio, à crónica, à novela e ao romance - destacam-se títulos como "Conversas com Marcello Caetano", "Os Nós e os Laços" e "O Riso de Deus".

O livro "A cor dos Dias" foi a sua última publicação.

Entre prémios e distinções, de destacar a condecoração em 1995 com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo, entregue pelo Presidente da República Mário Soares, e a Grã-Cruz da Ordem do Infante atribuída em 1983 pelo Presidente Ramalho Eanes.

O corpo vai estar em câmara ardente na Igreja das Mercês, em Lisboa, para rumar segunda-feira para o Cemitério dos Prazeres.

Manuel Alegre fala do amigo, "figura marcante da cultura portuguesa"

O deputado e poeta lamentou a morte do amigo, sublinhando o papel político do escritor "na luta pela democracia em Portugal".

"Era uma figura multifacetada, com uma cultura vastíssima, e um homem muito afectuoso nas suas relações com os amigos e a família", sublinhou Manuel Alegre, que não esqueceu "o papel importante" que Alçada Baptista teve, enquanto editor e presidente do Instituto Português do Livro, no estreitamento das relações de Portugal com o Brasil e os países africanos de língua oficial portuguesa.

Vasco Graça Moura lamenta "grande perda para a cultura portuguesa"

Também Vasco Graça Moura fez questão de destacar o papel do escritor na luta pela democracia.

"Era um amigo de há muitos anos e é com muito pesar que o vejo partir", lamentou o escritor e político.

Era "um indisciplinador da alma que contribuiu para a consciencialização de muitos cidadãos", além de um "excelente ensaísta, dotado de uma grande bagagem mental, sempre preocupado com a condição humana", acrescentou Graça Moura, destacando o seu livro "Peregrinação Interior I - Reflexões Sobre Deus".

Biografia de António Alçada Baptista

António Alçada Baptista foi ensaísta e ficcionista, admitindo ter na sua escrita uma sensibilidade feminina. Dizia ser dos poucos escritores que não tinha vergonha dos afectos.

"A minha obra escrita vende-se muito por uma razão simples, porque eu sou talvez o primeiro escritor que não teve vergonha dos afectos", afirmou.

Nascido na Covilhã em 1927, frequentou o colégio de jesuítas, sendo muito influenciado pelo Cristianismo e por pensadores como Emmanuel Mounier e Teillard de Chardin. Formou-se depois na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, exercendo advocacia entre 1950 e 1957.

"A Pesca à Linha - Algumas Memórias", obra de memórias, revelou o profundo sentido afectivo que caracteriza a escrita de Alçada Baptista.

"Um Olhar à Nossa Volta" serviu, por outro lado, de testemunho de uma vivência colectiva da década de 70 e 80, marcada por inquietações político-sociais.

A unanimidade da crítica e do público surgiria com "Peregrinação Interior - Reflexões sobre Deus" (1971) e "Peregrinação Interior II - O Anjo da Esperança" (1982).

"Documentos Políticos" (crónicas e ensaios, 1970), "O Tempo das Palavras" (1973), "Conversas com Marcello Caetano" (1973), "Os Nós e os Laços" (romance, 1985), "Catarina ou o Sabor da Maçã" (novela, 1988), "Tia Suzana, meu Amor" (romance, 1989) e "O Riso de Deus" (romance, 1994), são outros títulos da sua obra.

Foi também sócio da Academia Brasileira de Letras, da Academia das Ciências de Lisboa e da Academia Internacional de Cultura Portuguesa, presidente da Comissão de Avaliação do Mérito Cultural e administrador da Fundação Oriente.

Vida política

Seria candidato pela Oposição Democrática nas eleições de 1961 e 1969 para a Assembleia Nacional e, de 1971 a 1974, foi assessor para a Cultura do ministro da Educação, Veiga Simão.

Funcionário da Secretaria de Estado da Cultura desde 1978, presidiu aos trabalhos da criação do Instituto Português do Livro, assumindo a presidência até 1986.

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