"O Labirinto da Cidade", filme dentro da cabeça de Eduardo Lourenço, estreia-se quarta

Lisboa, 18 mai (Lusa) - Miguel Gonçalves Mendes filmou o pensamento de Eduardo Lourenço e criou um filme sobre o passado de Portugal e sobre a mortalidade, numa "homenagem em vida" ao ensaísta, que faz 95 anos na quarta-feira, dia da estreia.

Lusa /

O filme "O Labirinto da Saudade" adapta a obra homónima do filósofo Eduardo Lourenço e transporta os espectadores por uma viagem através da cabeça do pensador português, sendo exibido na RTP na quarta-feira, às 21:00, e estreando-se nos cinemas no dia seguinte.

Eduardo Lourenço é o protagonista e o narrador da sua própria história e vai percorrendo corredores, caminhos, salas e paisagens que representam o "labirinto da sua mente" e os recantos da sua memória, sempre em busca de resposta para a questão "o que é ser português".

Nesse caminho, confronta-se com os "traumas" do passado histórico -- como a ditadura, a escravatura e o colonialismo - procurando perceber o que define os portugueses enquanto povo, e por que se tornaram uma "nação condenada desde a sua origem a esgotar-se em sonhos maiores do que ela própria".

"É um filme melancólico, mas otimista", na medida em que confronta os espectadores com os traumas do passado, e os obriga a refletir sobre o passado e "repensar o que Portugal quer ser agora", disse o realizador Miguel Gonçalves Mendes, que também realizou "José e Pilar" (sobre Saramago) e "Autografia" (sobre Cesariny).

Enquanto passeia pelo labirinto da sua mente, Eduardo Lourenço recorda alguns fantasmas do passado, como a sua mulher Annie Salomon (que morreu em 2013), e cruza-se com amigos do seu presente, figuras da cultura lusófona como José Carlos Vasconcelos, Diogo Dória, Gonçalo M. Tavares, Gregório Duvivier, ou o astrofísico José Afonso, que assumem o papel de interlocutores e condutores das reflexões escritas no livro.

Cada uma destas pessoas representa uma personagem, algumas mais ligeiras, como a "telefonista" Lídia Jorge, ou a "sedutora" Pilar del Rio que quer voltar a juntar Portugal com Espanha, outras cómicas como a de Ricardo Araújo Pereira, que representa Salazar, e outras mais profundas, como o empregado do "Bar Eternidade", Álvaro Siza Vieira, com quem Eduardo Lourenço fala sobre a morte e sobre a finitude e questiona "o que afinal fica de nós nesta vida?".

Para o realizador, este é o "melhor diálogo" do filme, em que a morte está sempre presente, sem estar de forma evidente, e que termina com Eduardo Lourenço a subir uma escadaria, enquanto todos os amigos se despedem dele.

Foi intencional, reconhece Miguel Gonçalves Mendes, acrescentando que "não podemos fugir ao facto de ele ter 95 anos", e sublinhando a importância e o orgulho de fazer esta "grande homenagem que faltava a Eduardo Lourenço".

"Fico feliz por celebrar a pessoa em vida, é uma homenagem justa e é particularmente bonito estrear no dia 23, quando [Eduardo Lourenço] celebra 95 anos", afirmou, reconhecendo gratidão por o ensaísta ter confiado nele e ter-se entregado.

"As pessoas retratadas em documentários têm uma imensa coragem, uma generosidade extrema", afirmou, acrescentando que o que mais o marcou em Eduardo Lourenço foi a "pessoa extraordinária e humilde" que se revelou, "um génio com a nobreza de caráter de não o ostentar".

Mas nem tudo foi simples, conta, pois inicialmente Eduardo Lourenço não queria entrar no filme e chegou a pedir que arranjassem um duplo, contou Luís Sequeira, o porta-voz do grupo de amigos de Eduardo Lourenço que teve a ideia do filme.

Nesse grupo que convive há mais de duas décadas, contam-se Luís Sequeira e o antigo presidente da República Ramalho Eanes, que conseguiu, através de um "movimento cívico" iniciado há mais de dois anos, criar este projeto.

O convite para fazer o filme foi dirigido a Miguel Gonçalves Mendes, que inicialmente questionou se aceitava ou não, mas no fim admitiu que era "irrecusável".

Apesar de estar cheio de trabalho -- devido ao projeto "O Sentido da vida" e a um filme sobre Fátima -- decidiu aceitar e "mergulhar no labirinto do inferno sem fim do trabalho", conta.

A filmagem durou 13 dias, foram 30 horas, "então os argumentos eram esqueletos abertos", ou seja, os intérpretes "sabiam sobre os temas de que tinham de falar, mas o diálogo era livre".

Os temas históricos e os saltos no tempo são apresentados com recurso a animação, excertos retirados do "Fado Lusitano", de Abi Feijó, e outros acrescentados.

"Estes momentos são importantes para não nos perdermos na cronologia e perceber do que estamos a falar", explicou.

O filme -- como Miguel Gonçalves Mendes gosta de lhe chamar, porque não o considera nem documentário, nem ficção -- teria de adaptar uma obra filosófica, um ensaio, contando uma história que visitasse lugares e amigos de Eduardo Lourenço, sempre respeitando o pensamento do ensaísta.

Este foi outro desafio e a razão por que o realizador decidiu que o filme se passaria "dentro da cabeça" de Eduardo Lourenço e que este representaria o seu próprio papel.

"O retratado revê-se no filme e isso é muito importante", afirmou, revelando o que o próprio Eduardo Lourenço lhe confessou depois de ter visto o filme pela primeira vez.

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