O martírio de "Santos e Pecadores" no novo projeto do ator e encenador André Murraças

O ator, encenador e autor André Murraças sobe ao palco do novo espaço do Teatro Praga, ao Conde Barão, em Lisboa, para apresentar "Santos e pecadores", desafiando o público a encontrar uma linha comum entre santos católicos e atores pornográficos.

Lusa /

O monólogo, que se estreia na segunda-feira, no n.º6 da rua das Gaivotas, "é um díptico", disse à Lusa André Murraças, que explicou em seguida: "Numa parte apresentam-se os santos, como São Sebastião, Santa Luzia, a quem terão arrancado os olhos, e S. Cupertino, que levitava quando ouvia as palavras misteriosas, e, na outra, os atores pornográficos como Linda Lovelace, Richard Pacheco ou François Sagat".

"O que os une, de certa forma, é uma perspetiva bastante humana, que lhes traça a vida com um tom de martírio, bastante sofrimento, e algum sucesso", afirmou à Lusa André Murraças.

Da galeria de santos católicos não consta Santa Maria Madalena, "por absoluta falta de espaço", mas Murraças pensa num segundo monólogo - "até porque sobrou muito material" -, em que pode incluir aquela que acompanhou Jesus.

Referindo-se ao monólogo, afirmou: "O que procurei foi a história humana por detrás da iconografia, quer dos santos, quer dos atores, sendo possível encontrar entre eles, uma linha comum de martírio e sofrimento".

"A ideia foi a de juntar dois universos que não tinham nada a ver um com o outro; mas interessava-me explorar o que existe para além das imagens, dos santos e dos atores, que histórias existem", afirmou Murraças.

Por um lado, prosseguiu o encenador e ator, o interesse focou-se "no que torna alguém santo, e qual a é a vida que levam as estrelas, que se dedicam à pornografia, principalmente depois de saírem de atividade".

Linda Lovelace (1949-2002), que protagonizou "Garganta funda" (1972), filme realizado por Gerard Damiano. A ex-atriz "tem uma história horrível paralela ao filme, do qual não recebeu dinheiro por ter participado nele, e tornou-se uma ativista contra esta indústria".

O ator francês François Sagat, atualmente com 36 anos, dedica-se atualmente à moda e ao cinema não pornográfico.

O monólogo trata ainda temáticas como o "sentimento de culpa e o sofrimento, na perspetiva dos santos e dos atores", disse Murraças, que se interessou "como cresceu o ato santo, através das ficções populares, das pregações sacerdotais".

"Santos e pecadores" é, segundo o encenador, a continuação de um trabalho que explora "o que existe para lá das iconografias", tendo já apresentado "Sex Zombie -- a vida de Veronica Lake", sobre a luta de uma atriz de Hollywood contra o esquecimento, "Cândida -- uma história portuguesa", sobre a cantora Cândida Branca Flor (1949-2001), ou "Experiência Variações", em torna da biografia do cantor e compositor António Variações (1944-1984).

A peça está em cena até 19 de dezembro e André Murraças nunca se despe em palco, nem opera milagres.

Tópicos
PUB