Cultura
"O Mecanismo de Matar". O primado do lucro levado ao extremo na literatura
Quatro amigos são envolvidos numa trama de dimensão assustadora. Um deles, gestor de Recursos Humanos numa empresa, é confrontado pela administração com a necessidade de eliminar trabalhadores. Para tal é elaborado um mecanismo de matar que têm de impedir a todo o custo que se concretize. O primeiro livro editado do jornalista da RTP Paulo Amaral.
O Mecanismo de Matar conta a história de quatro amigos que perante uma vida “mais ou menos indiferente” são envolvidos numa engrenagem com contornos impensáveis. A ideia do CEO da empresa onde um deles é diretor de Recursos Humanos é matar trabalhadores para diminuir os custos e aumentar os lucros.
Foram também longos anos para publicar, em papel, porque defende que a sua função, neste caso, é “escrever e a das editoras publicar. Ou seja, eu invisto o meu tempo e o meu esforço a escrever. Não consigo investir mais nada. Houve duas ou três editoras que se propuseram a publicar. Mas queriam que eu comparticipasse nos custos. Eu não entro nessas modalidades porque eu não tenho a obsessão de publicar.”
Conscientes do que está em causa, os quatro amigos têm de fazer alguma coisa para impedir o mecanismo de entrar em funcionamento.
A obra, de ficção, é uma metáfora para algo bem real nos dias de hoje, diz Paulo Amaral. “Há um único elemento que interessa no atual tecido empresarial, no mundo inteiro. Chama-se lucro. E tudo o que estiver entre a empresa e o lucro é eliminado”.
É também sobre esta relação de forças que se lê neste mecanismo. A ideia do lucro acima do valor do trabalhador. “Claro que depois há pessoas que pagam, as pessoas que trabalham”, diz Amaral. “O valor do trabalho é desvalorizado”.
No livro, os quatro amigos, “que funcionam como um único organismo”, vão tentar por um fim a esta ambição cega, capaz até de matar. Sem que no entanto eles próprios se vejam confrontados com dúvidas e incertezas sobre o processo. “No fundo os quatro amigos funcionam como se fossem uma só pessoa”, diz-nos Paulo Amaral. “E essa pessoa em diferentes momentos tem as suas contradições e tem, como os diamantes, várias facetas”.
O mecanismo de escrever… e os desafios para editar um livro
Foram praticamente dez anos de trabalho. “Este livro custou muito a escrever porque foi reescrito três vezes”, conta-nos Amaral. E para o criar também foi preciso encontrar um mecanismo próprio. Com dois truques. “O primeiro é beber um litro de café antes de começar a escrever. O segundo é que nunca me sento sem ter a primeira frase com que vou iniciar. Tenho que ter essa frase completa, perfeita. E sei que não vou mexer”.
Durante este trabalho, solitário, diz que passou por longos períodos sem avançar, numa procura incessante para encontrar a sua “gramática”. Aquele momento em que sente que não está “a imitar ninguém. As palavras ou são minhas amigas ou não. E elas podem andar sem ser minhas amigas durante um dia, uma semana, um mês. Mas quando reencontro a minha gramática tudo se torna absolutamente natural”.
Mas o sonho existia. Conseguiu agora, com a Edições Vieira da Silva, que se propôs a lançar o Mecanismo de Matar. Está há pouco mais de uma semana à venda nas livrarias. “Foi uma pequena festa na minha cabeça”.
Promete continuar a escrever até porque não sabe “fazer outra coisa”. Para breve pode estar a edição de um outro trabalho que escreveu quando tinha 27 anos.