O misterioso desaparecimento do "Pimpinela Escarlate" sueco
Lisboa, 16 abr (Lusa) - O sobrinho bisneto do sueco Raoul Wallemberg disse hoje, em Lisboa, que o diplomata que salvou 100 mil judeus na Hungria durante a II Guerra Mundial foi inspirado num filme de propaganda britânico.
Já a guerra tinha começado quando Raoul Wallemberg, homem de negócios de uma família abastada sueca, viu, na companhia da mãe, uma adaptação de propaganda da história de Percy Blakeny, o "Pimpinela Escarlate", o inglês que salvou centenas de aristocratas da forca durante os anos do Terror, no final do século XVIII, a seguir à Revolução em França.
"É isto que eu quero fazer", disse Wallemberg à mãe no final do filme, contou hoje em Lisboa Michael Wernstedt, neto da irmã do diplomata sueco que salvou milhares de judeus na Hungria entre 1944 e 1945, durante uma cerimónia de homenagem a Raoul Wallemberg, na fundação Calouste Gulbenkian.
"O que o torna (Raoul Wallemberg) relevante é a inspiração sobre como fazer a diferença e ajudar outros homens", disse ainda o familiar do diplomata, que recordou a forma como os judeus da Hungria foram salvos do extermínio nazi durante a II Guerra Mundial.
Em janeiro de 1945, quando tentava contactar os oficiais soviéticos que invadiam Budapeste, Wallemberg desapareceu e a morte acabou por transformar-se num mistério até hoje longe de estar clarificado.
"A partir de 1947, os soviéticos mudaram a história muitas vezes, mas nunca apresentaram provas conclusivas sobre o que se passou", disse o familiar de Wallemberg, recordando que a versão de Moscovo durante os anos 1950 indica que o sueco morreu em 1947, num calabouço na capital russa.
Para o sobrinho bisneto de Wallemberg, faz todo sentido recordar a História, até porque não se pode "esquecer o que se passou no Congo, no Ruanda e agora na Síria", disse Michael Wernstedt, que também se referiu à existência atualmente de "grupo xenófobos na Suécia e a partidos racistas na Hungria", quase sete décadas após o fim da guerra na Europa.
Durante a cerimónia que assinalou hoje em Lisboa o centenário do nascimento do diplomata sueco, que contou com a presença do ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas e do secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, o embaixador de Israel disse que foram "os israelitas que em 1966 homenagearam Wallemberg", provocando o interesse sobre os acontecimentos de Budapeste durante a ocupação.
Para Ehud Gol, embaixador de Israel os nomes dos diplomatas como Wallemberg, incluindo portugueses que auxiliaram judeus a fugir da Europa ocupada devem ser lembrados.
Segundo a Fundação Internacional Raoul Wallenberg, a primeira tarefa do diplomata sueco em Budapeste foi conceber um documento de segurança para ajudar os judeus das autoridades húngaras.
Inicialmente, em 1944, altura em que assumiu o cargo na embaixada, só tinha autorização para emitir 1.500 passaportes, mas rapidamente conseguiu persuadir as autoridades húngaras a emitir outros 1.000 e, pouco mais tarde, conseguiu, junto do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Hungria, elevar, só nos primeiros meses na embaixada, o número de passaportes para os 4.500.
Wallemberg recorreu muitas vezes ao suborno das autoridades de Budapeste e mesmo a ameaças junto de funcionários do Governo local para salvar os judeus da deportação.
Nos apartamentos refúgio, sob a bandeira da Suécia, país neutral durante o conflito, chegaram a viver na mesma altura cerca de 15.000 pessoas. No final de 1944, Wallenberg começou a autenticar com a própria assinatura uma versão simplificada do passaporte e que se resumia a uma única folha de papel.
Em Janeiro de 1945, Adolf Eichman, chefe do Departamento IV B 4, da Gestapo, órgão responsável por toda a logística relacionada com execução do plano de extermínio, 48 horas antes da entrada dos soviéticos ordenava a destruição do maior gueto judeu de Budapeste. Morreram ali entre 90 mil a 120 mil judeus.
Durante a queda de Budapeste, Wallemberg contacta os militares soviéticos e é escoltado pelos russos para fora da cidade, juntamente com o motorista da embaixada, no dia 17 de janeiro de 1945. O diplomata pensava que o contacto com os oficiais soviéticos poderia demorar pelo menos uma semana. Nunca mais foi visto.
Moscovo informou em 1957 que Wallemberg morreu numa prisão soviética em 1947, mas, segundo historiadores, há relatos de sobreviventes que indicam que sobreviveu ao cárcere dos comunistas em Moscovo e que foi transferido para os campos de trabalho.
Nos anos 50, o Governo sueco pediu às autoridades russas para esclarecerem o paradeiro e os motivos que levaram à prisão de Wallenberg, mas a resposta oficial soviética foi sempre a de que morreu em Moscovo, na sede do NKVD (organismo que antecedeu o KGB).
O mistério Wallenberg nunca foi desvendado mesmo após a abertura dos arquivos da antiga polícia política soviética, nos anos 1990. O "herói sem túmulo" está homenageado em Jerusalém, no Yad Vashem, o monumento em memória das vítimas do Holocausto, é cidadão honorário dos Estados Unidos e Budapeste dedicou-lhe uma estátua.