O monumento "kitsch" que só Donald Trump aprecia

Mede quase o triplo da Estátua da Liberdade. Já bateu a todas as portas possíveis, e ninguém a quer em parte alguma. Motivo: é feia como a noite. Só o novo inquilino da Casa Branca estaria tentado a furar esta rejeição universal.

RTP /
DR

A estátua foi concebida e executada sob a direcção do russo-georgiano Surab Zereteli, oficialmente escultor. Foi-lhe encomendada em 1990 pelo presidente George Bush (pai), quando este o conheceu durante uma visita que fez a Moscovo.

Devia representar a figura de Cristóvão Colombo e estar instalada nos Estados Unidos em 1992, por ocasião quinto centenário da "descoberta do Novo Mundo". O nome correspondia à ideia: "O nascimento do Novo Mundo".

Segundo a versão online de Der Spiegel, Zereteli era já nesses idos de 1990 conhecido na URSS. Tristemente conhecido: havia quem o alcunhasse de "génio do kitsch"; outros classificavam-no como "provocantemente desprovido de talento". Observadores de proximidade não se deixavam encantar com o seu trabalho.

Por algum motivo, o velho Bush teve um palpite favorável àquela encarnação extrema dos novos ricos da URSS, a passear-se em Rolls Royce, com enormes caxuxos a ornamentarem-lhe os dedos e com prosápia de artista que só podia acreditar alguém vindo de fora. Bush pediu-lhe um projecto e Zereteli apresentou três. Bush escolheu um e fez a encomenda.

A estátua devia medir 126 metros, e eclipsar os 46 metros da Estátua da Liberdade. Pesaria 544 toneladas de aço e bronze, e seria composta por 2750 módulos, que só se poderia juntar no local onde viesse a ser instalada. Só o custo do transporte por via marítima estava calculado em 25 milhões de dólares.

Mas o problema era precisamente  a instalação. Bush queria colocar a estátua nos EUA - algo vago como localização. E cada um dos municípios norte-americanos foi recusando a honra de acolher o mamarracho.
Cidades que recusaram a estátua

Nova Iorque
Fort Lauerdale
Miami
Baltimore
Cleveland
Boston

Onde quer que chegasse a sua imagem, em fotografia acompanhando a proposta de acolhimento, logo a estátua era baptizada com cognomes sarcásticos: em Nova Iorque, por exemplo, chamaram-lhe "Chris Kong".

As propostas sobre o que fazer com ela eram ainda mais trocistas: alguém propôs que ela fosse afundada no mar para fazer um rochedo artificial, mais alguém propôs que se lhe cortasse a cabeça e deitase fora o resto, para reduzi-la a proporções mais razoáveis.

Entretanto, passou o ano do quinto centenário e a estátua continuava encalhada. Em 1994, o autor tentou cobrar a Bill Clinton o compromisso do seu antecessor na Casa Branca, e falhou. Em 1997 foi temporariamente colocada em Moscovo e suspeitou-se que houvesse a intenção de fazer passar Colombo pelo czar russo "Pedro, o grande", por ocasião do terceiro centenário da marinha russa, criada por este.

Correu até o maldoso boato de que a cabeça de Colombo fora substituída pela do czar homenageado - o que parece ser um fado de várias estátuas, e também de uma portuguesa (a de Pedro IV, no Rossio, que supostamente representava o imperador Maximiliano do México e teve de ser vendida ao desbarato quando a república foi implantada nesse país). Mas Zereteli desmentiu que a sua obra pudesse ser manipulada de forma tão descarada.

Em todo o caso, em Moscovo a estátua também se tornava alvo de troça e de hostilidade. Boris Jelzin, enquanto presidente, teve a lucidez de sublinhar a fealdade inexcedível da obra. Um grupo de defesa do patrinómio considerou-a "um insulto à cidade". Um outro grupo planeou dinamitá-la e só desistiu da ideia por recear danos colaterais na população.

Em todo o mundo, só há memória e registo de uma voz influente que na ocasião se tenha levantado em defesa daquela superlativa piroseira: em 1997, Donald Trump classificou-a como "um trabalho grandioso" e andou em diligências para levá-la para Nova Iorque e instalá-la, com a sua estatura equivalente a um prédio de 30 andares, no recinto da "Trump Place", que queria construir na margem do rio Hudson.

Quem nesse momento salvou Nova Iorque da indesejável poluição visual foi o então presidente da autarquia, Rudolph Giuliani, que recusou indignado a "zeretelização" da cidade. Hoje, não é conhecida alguma nova investida de Trump para trazer a estátua. Mas Trump é presidente e Giuliani deixou de sê-lo. Em todo o caso, Giuliani é um apoiante de Trump.

E meio caminho da estátua já está andado. Em 1998, ela foi acolhida em Porto Rico, na estância balnear de Cataño, a dominar a baía de San Juan. Mas aí também começou a ser contestada. E o Ministério das Finanças apresentou-se a cobrar três milhões de dólares de impostos pela instalação.

Entretanto alguns não queriam a estátua por lhes lembrar Colombo, iniciador do genocídio das populações ameríndias. A autoridade portuária recusou autorização para a montagem da estátua. A autoridade aeroportuária implicou com a altura excessiva, que podia constituir um risco para os aviões. Como Porto Rico, afinal, não queria a estátua em parte alguma, ela ficou a enferrujar no recinto de um antigo parque de diversões.
PUB