O precursor da poesia de discurso homo-erótico

Lisboa, 15 Mar (Lusa) - António Botto falecido faz 50 anos na próxima terça-feira foi um precursor, designadamente da poesia de discurso homo-erótico e da introdução da quadra popular nesse discurso, disse o escritor Eduardo Pitta.

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Eduardo Pitta, que está a dirigir desde o ano passado a reedição da obra completa de Botto, apresentará terça-feira uma palestra sobre o poeta, na Casa Fernando Pessoa em Lisboa, a Campo de Ourique.

A convicção do escritor é que, se o autor de "Canções e outros poemas", reeditado o ano passado, tivesse nascido nos Estados Unidos ou no Reino Unido "seria hoje estudado em todas as universidades".

Todavia, ao lado "claramente homossexual da sua obra" juntam-se os "azares biográficos" que o marginalizaram da sociedade e o tornam "um poeta maldito".

Entre os azares biográficos está a sua origem proletária, disse Pitta, que referiu por comparação o seu companheiro Raul Leal, autor de "Sodoma divinizada", que sendo "um burguês rico tinha tudo mais facilitado".

"Era muito rico [Raul Leal], vivia num palácio e quando era preso por indecente e má figura passados dez minutos era libertado", afirmou.

Botto fez parte de uma certa boémia lisboeta, mas Eduardo Pitta afasta uma ligação clara ao fado, apesar da sua poesia ser muito utilizada pelos fadistas.

"Não há essa referência, é uma ligação mais mítica que real", sublinhou o escritor.

Eduardo Pitta afirma: "Botto apenas escreveu uma canção popular para um filme de Lopes Ribeiro, e não consta que tenha escrito propositadamente para fado".

Maria da Fé, Camané e Mariza são alguns dos fadistas que cantam poemas seus, o que, para Pitta, "é natural, até porque Botto tem uma poesia muito musical".

A fadista Maria da Fé na melodia do Fado Menor acrescenta uma quadra de Botto a duas outras de Régio.

"Intitula-se `Nasci em lençóis de palha`, e às vezes sinto falta daquela quadra e tem tudo a ver, até porque Régio sempre demonstrou admiração pelo confrade que teve um fim triste", disse a fadista à Lusa.

Referindo-se à efeméride, Eduardo Pitta afirmou que "é sempre um pretexto para lembrar um autor e chamar atenção para a sua obra".

Este ano, a colecção que dirige publicará a edição revista de "Cartas que foram devolvidas", que separou de "Canções e outros poemas", editado o ano passado.

Terça-feira pelas 18:30 na Casa Fernando Pessoa, Eduardo Pitta apresentará a palestra "Toda a verdade será castigada", sobre António Botto e a sua obra.

Pitta defende que "nunca tendo sido esquecido", Botto é uma figura de "primeira linha da Literatura Portuguesa".

António Botto "continua hoje a ter o interesse do público em geral, sendo seguramente mais lido que Eugénio Andrade", disse Eduardo Pitta.

Relativamente ao poeta de "As mãos e os frutos", Pitta afirma que, "em Botto, o amor tem género, é masculino, sem medos e afirmativo. Tendo antecipado de forma estridente a evidência da experiência".

O escritor afirmou que "muitos poetas, na actualidade, optam por uma ambivalência a uma definição, coragem que teve António Botto, tanto mais que escreveu todos aqueles poemas em 1919, 1920 ou 1921".

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