Obra de Luiz Pacheco é fragmentada mas com "fulgor anímico, estilístico e estético" - Vítor Silva Tavares

Lisboa, 06 Jan (Lusa) - Luiz Pacheco é autor de uma obra "extremamente fragmentada" mas com "um fulgor anímico, estilístico e estético que marcam nele o grande escritor que é", disse hoje à agência Lusa Vítor Silva Tavares.

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O editor da &ETC, que acompanhou durante mais de 40 anos o percurso de vida e literário de Pacheco, foi, então na Ulisseia, o primeiro a editar em livro textos de Pacheco, "Crítica de circunstância, que reunia "os estilhaços que estavam dispersos em papelinhos, opúsculos só conhecidos de meia dúzia de pessoas que o admiravam".

"Esse livrinho - recordou - foi de imediato apreendido pela PIDE, o que marca o poder interventivo de Pacheco. Era tudo menos um livro inofensivo".

Na sua opinião, o autor de "Comunidade" "fez uma simbiose muito forte entre os seu percurso de vida e a sua literatura", de certo modo "desdobrou-se na personagem que ele próprio criou, a personagem de vadio e pedinte, de libertino, de libertário, de iconoclasta".

Receia, por isso, que "essa imagem de marca muito recortada" tenha abafado "o escritor que fez da sua escrita um admirável exercício de estilo".

"De certo modo o que lamento - observou ainda - é que, hoje em dia, as pessoas que admiram Luiz Pacheco, mais o admirem pelo lado faceto, pela imagem de marca, do que pelo recorte da sua obra, pelas incidências que essa obra pôde ter na longa noite do fascismo"

Na "república das letras portuguesa", Pacheco, definiu o editor, foi "um indispensável inimigo".

"Talvez por isso, não sei - disse - se, agora que morreu, alguém poderá chorar por ele. Mas apetece-me dizer que, se calhar, ele preferiria, à lagrima, o riso".

Paralelamente ao papel de interventor crítico, Vítor Silva Tavares destacou em Luiz Pacheco o papel de "aventureiro-editor", à frente da Contraponto, sob cuja chancela apareceram nomes então desconhecidos como Mário Cesariny e Herberto Helder.

"Foi - qualificou - uma magnífica aventura, de alto risco, que ele enfrentou sempre. Esse papel ninguém lho tira e é, sem dúvida, marcante".

RMM.


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