Obra "Do tirar pelo natural" de Francisco de Holanda reeditada ao fim de 35 anos
Lisboa, 01 mar (Lusa) -- A editora Documenta lança hoje o livro "Do tirar pelo natural", do teórico português do século XVI Francisco de Holanda, considerado o primeiro tratado da história da arte dedicado integralmente ao retrato enquanto objeto artístico.
Esta famosa obra, daquele que é considerado um dos mais importantes vultos do Renascimento em Portugal, foi publicada em 1984 pela Livros Horizonte, no âmbito da edição das obras completas do humanista, coordenada por José da Felicidade Alves, estando arredada das livrarias portuguesas desde então.
A Documenta vai agora editar a obra, estando previsto o seu lançamento hoje, pelas 18:30, na livraria Sistema Solar, no Chiado, apresentada pelos curadores Paulo Pires do Vale e Raphael Fonseca e pelo artista e divulgador Tomás Maia, segundo informação disponível na página desta loja, na Internet.
"Do tirar pelo natural" ("Do tirar polo natural", no original) é um texto escrito pelo artista e humanista português Francisco de Holanda (1517-1584), finalizado em 1549, e que, segundo vários historiadores de arte, consiste na primeira fonte textual a debruçar-se exclusivamente sobre o retrato como género artístico.
Através de um diálogo entre o autor e um amigo artista (Brás Pereira), Francisco de Holanda revela ao leitor o processo de criação de um retrato, e quais são as pessoas que o merecem.
"Do tirar pelo natural" aponta ainda para algumas das preferências do autor, através dos nomes dos artistas por ele citados, como é o caso de Miguel Ângelo ou Tiziano Vecellio, pintor italiano que, posteriormente, considerou ser o melhor retratista vivo.
Esta obra foi publicada pela primeira vez apenas no final do sáculo XIX e depois no final do século XX (1984), em Portugal, não tendo voltado a ser editada, até agora, nesta edição crítica pela Documenta.
No ano passado, a obra de Francisco de Holanda permitiu estruturar a exposição "Do Tirar polo natural. Inquérito ao retrato português", que esteve patente no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, de 29 de junho a 14 de outubro, comissariada por Anísio Franco, Filipa Oliveira e Paulo Pires do Vale.
Francisco de Holanda foi um dos mais relevantes expoentes da reflexão estética no renascimento português, um pintor e humanista, nascido em Lisboa em 1517, filho de António de Holanda, cuja projeção no âmbito da pintura e da iluminura já havia firmado em Portugal.
É na escola do seu pai que Francisco de Holanda adquire os primeiros conhecimentos da arte da pintura, partindo aos 20 anos (em 1537) para Roma, no âmbito da política cultural de D. João III que estimulou a presença de bolseiros portugueses nos maiores centros da cultura europeia da época, segundo a informação biográfica disponibilizada pelo Instituto Camões.
Chegado a Itália, já com uma importante bagagem cultural adquirida em Évora, viria a considerar-se discípulo de Miguel Ângelo, relatando na obra "Diálogos em Roma" (1548) os "aspetos mais marcantes e fecundos do seu convívio com o mestre italiano".
Na obra de Francisco de Holanda, recuperada pelo investigador José da Felicidade Alves (1925-1998) na década de 1980, destacam-se também "Álbum dos Desenhos das Antigualhas" (1539-1540), "Da Pintura Antiga" (1548) e "Da Fábrica que Falece à Cidade de Lisboa" (1571), relação de infraestruturas e equipamentos em falta na cidade, num primeiro ensaio de plano diretor da capital, escrito sob a forma de carta dirigida à coroa.