"Opus Dei" de John Allen Jr. apresenta "a organização tal como ela é"
O livro "Opus Dei", a editar esta semana, revela pela primeira vez dados financeiros desta organização católica que é apresentada "tal como ela é, sem juízos preconcebidos", explicou à Lusa o seu autor, John Allen Jr.
Jornalista do National Catholic Reporter, John Allen Jr.procura traçar o retrato daquela que é a prelatura pessoal do Papa, desde João Paulo II - que canonizou o seu fundador, Josemaría Escrivá, a 06 de Outubro de 2002 - referenciando testemunhos de membros, ex- membros, analistas, historiadores, eclesiásticos e documentos governamentais.
É a partir destes documentos que o autor apresenta alguns dados financeiros relativos ao Opus Dei (OD), nomeadamente nos Estados Unidos e Reino Unido, o que aconteceu pela primeira vez, como frisou.
A partir de um relatório que as organizações com fins não lucrativos têm de apresentar aos serviços fiscais norte-americanos, sabe-se que, em finais de 2002 "o Opus Dei e fundações filiadas e outras instituições controlavam 344,4 milhões de dólares de activos".
Outros números dados referem-se ao OD no Reino Unido.
"As actividades do Opus Dei no Reino Unido têm um total de activos de 72.869.807 dólares, mas também têm compromissos na ordem dos 42.498.599, o que quer dizer que o seu valor líquido é de 30.371.208", escreve o autor.
Citando o administrador geral do OD em Roma, Pablo Elton, relativamente ao orçamento anual de 2003 dos escritórios centrais, fica-se a saber ser de 1,7 milhões de dólares.
Em seu entender Pablo Elton "nada escondeu" e considera que "a exemplo de outras questões também se mistifica um pouco sobre o império financeiro" do OD.
Em declarações à Lusa, o jornalista afirmou que "fazer uma ideia genérica do dinheiro movimentado pelo OD exigia um estudo não só da organização em si como de todas as fundações e instituições, nomeadamente de ensino, ligadas a esta prelatura católica".
Por outro lado, referiu, "o dinheiro da organização é um e o que controlam as organizações tuteladas pelos seus membros é outro, absolutamente diferente, e que na realidade nada tem a ver com a organização".
à Lusa John Allen Jr. alertou para a necessidade de distinguir "o acessório do essencial" quando se fala da OD, "tanto mais que muitas das vezes o que se debate reflecte as preocupações de um dado momento".
Segundo o jornalista abordar a OD por questões como "o secretismo", "o dinheiro" ou "o poder", não se atinge o centro da questão.
Em seu entender, "há que perceber a sua fundação e as pedras angulares que norteiam a sua acção - santificação do trabalho, contemplação, liberdade cristã e filiação divina".
Por outro lado, o OD representa menos de um por cento no universo de 1,1, milhões de católicos.
Entre leigos e sacerdotes os membros do OD não ultrapassam os 85.491, estimativa do Anuário Pontifício do ano passado.
Esta "menoridade numérica contradiz a grande exposição mediática que é devida a múltiplos factores, nomeadamente por ser um grupo ainda recente no seio da Igreja Católica, a sua fundação ser confundida com o fascismo de Francisco Franco e logo vista como conservadora, formar elites desde 1930".
Fundado em Espanha, em 1928, por monsenhor Josemaría Escrivá o Opus Dei existe actualmente, em 80 países.
Em seu entender "existirá sempre" fazendo um paralelismo com a cerveja Guiness Extra Stout que apesar da fermentação forte e "de um sabor que é preciso aprender a gostar, terá sempre os seus seguidores e defensores".
Depois de Espanha, Portugal foi o primeiro país para onde se expandiu, "pois já estava activa em 1945, apesar de oficialmente se referir a data de 1946, a mesma que a Itália e o Reino Unido", disse o jornalista.
O nosso país é no seu entender "um caso onde o OD falhou" pois considera que "cresceu muito mais noutros países onde se implantou mais tarde do que em Portugal" e cita o caso da Nigéria, onde chegou só há 40 anos e tem hoje "um considerável número de membros".
No universo da lusofonia, o OD chegou ao Brasil em 1957 e em 1989 a Macau.
Depois da Itália e Grã-Bretanha, estendeu-se ainda nessa década, à França, Irlanda, Estados Unidos e México.
Segundo o autor, o OD "controla" um conjunto de institutos de ensino, nomeadamente a Universidade de Navarra, "que não sendo propriedade sua, a maioria do conselho administrativo é composta por membros seus", e também diversas instituições de apoio social e caritativo, como pensionatos e hospitais.
O autor divide a obra em quatro partes, a primeira onde dá uma "panorâmica da obra do Opus Dei", concretizando o pensamento do seu fundador, S.Josemaría Escrivá, numa segunda, como a organização é vista de dentro, onde aborda as quatro pedra angulares que norteiam a sua acção, e numa terceira várias interrogações que coloca.
Estas interrogações referem-se a algumas das questões "mais faladas pela opinião pública", designadamente "o secretismo", "as mortificações", "a obediência cega" ou "o dinheiro".
Na quarta, John Allen Jr.faz finalmente, o seu "juízo crítico" e, conforme explicou à Lusa, "coloca metodicamente questões que a instituição" lhe levanta, depois de "a ter tentado analisar e perceber o seu funcionamento".
Uma paira ainda hoje na sua mente, relativamente ao futuro, "poderá o OD reformar-se?" a resposta que obteve dos muitos membros que ouviu, e que explica em muito o espírito desta prelatura "foi sempre em termos da conversão pessoal e do auto-aperfeiçoamento".
John Allen Jr.escreveu já outros livros sobre temáticas católicas, é comentador da CNN e da National Public Rádio dos EUA para assuntos da Santa Sé, e de várias outras publicações como o Boston Globe, New York Times ou The Nation.