"Os Americanos" critica problemas dos EUA com "visível modernidade"
Um ensaio do jornalista Henry Louis Mencken sobre os norte-americanos escrito há mais de 80 anos vai ser editado em Portugal pela Antígona, que justifica a escolha com o anti- americanismo e as críticas a George W. Bush.
Autor de uma coluna controversa no jornal "Baltimore Sun", o norte-americano Henry Louis Mencken (1880-1956) nunca poupou os seus compatriotas, tendo escrito, entre outras obras, "A New Dictionary of Quotations and Prejudices" (em português Novo Dicionário de Citações e Preconceitos), uma série de seis volumes publicada entre 1919 e 1927.
Esta série incluiu o ensaio "On Being An American" (em português Sobre os Americanos), que a Antígona publica como "Os Americanos", numa tradução de Fernando Gonçalves que a editora considera "de visível modernidade", já que dá a conhecer "as raízes mais profundas do `mal americano`".
No seu texto, Mencken afirma ser sua profunda convicção, apoiada em "mais de vinte anos de estudo", que "o governo dos Estados Unidos, tanto no ramo legislativo como no executivo, é ignorante e incompetente, corrupto e repulsivo".
A crítica estende-se dos governantes à população em geral, com o autor a escrever que o povo americano "constitui a mais timorata, choramingas, pusilânime e ignominiosa multidão de servos e praticantes de ordem unida que alguma vez se juntou sob a mesma bandeira em toda a Cristandade desde o fim da Idade Média".
"Os Estados Unidos são essencialmente uma comunidade de gente de terceira categoria; esta é uma distinção fácil de fazer devido ao baixíssimo nível de cultura, de informação, de gosto, de capacidade crítica e de competência", afirma ainda.
Em relação ao capitalismo, o escritor antecipava, em 1922, que este haveria de sair "ainda mais forte" das tempestades que o afectavam, pois "o homem inferior abomina-o, mas este ódio está eivado de demasiada inveja", pelo que nunca quererá combatê-lo eficazmente.
Contrapondo a ideia de um "futuro glorioso" prometido pelos governantes aos norte-americanos, Henry Louis Mencken arrasa "as discussões brejeiras dos demagogos" e "as deliciosas e engenhosas manigâncias dos mestres da pulhice", como o próprio descreve.
Sempre num tom impiedoso, o texto - que nesta edição anotada surge acompanhado de fotografias a preto e branco captadas por Robert Frank em 1958 nos Estados Unidos - analisa ainda outros aspectos culturais, sociais e económicos do país.