Os Possessos estreiam "A mentira" a partir de Agota Kristof em Lisboa
Lisboa, 25 mar (Lusa) -- A companhia Os Possessos leva à cena, na sexta-feira, "A mentira", a partir da trilogia romanesca de Agota Kristof, com texto e encenação de João Pedro Mamede, no Teatro da Politécnica, em Lisboa.
Em declarações à agência Lusa, João Pedro Mamede afirmou que escreveu uma peça a partir da trilogia dos romances de Kristof -- "Caderno grande", "A prova" e "A terceira mentira" -, fascinado pela leitura em que se deparou com "uma reinvenção constante dos significados e da crueldade das personagens".
"Como no fundo estão sempre a contar-se versões da mesma história, na medida em que o segundo romance diz que o primeiro é mentira e o terceiro diz que o segundo é mentira, propus a Os Possessos fazer um espetáculo que adaptasse essa dinâmica de reinvenção constante".
"O protagonista da história é um duplo protagonista, na medida em que são dois gémeos, no primeiro romance, e os dois juntos sobrevivem a uma série de episódios cruéis. No segundo, um deles está ausente e ficamos só com um que espera o regresso do outro e, no terceiro romance, ficamos só com o que existe porque o outro terá sido inventado, na mesma lógica de sobrevivência à guerra e à crueldade", contou.
João Pedro Mamede adiantou que o duplo protagonista é "Klaus T", o encenador do espetáculo -- que não Mamede, o encenador propriamente dito, mas uma personagem desempenhada por João Vicente, que contracena com nove atores que "alinharam neste espetáculo doentio, que é a busca do encenador pela sua projeção, pelo seu irmão gémeo, e o espetáculo vai-se redefinindo, até que os próprios atores se amotinam dentro do próprio espetáculo, e o encenador sofre uma mutação".
Além de João Vicente, em palco estão Ana Amaral, André Pardal, Catarina Rôlo Salgueiro, Francis Seleck, Guilherme Gomes, Marco Mendonça, Maria Jorge, Nuno Gonçalo Rodrigues e Teresa Coutinho.
Para João Pedro Mamede, a "parte mais complicada foi fazer um plano de trabalho para dez atores e gerir as disponibilidades de dez atores".
Os atores foram essenciais, na medida em que a primeira parte do texto foi trabalhada com eles, como um clube de leitura, "e a segunda parte do texto foi criada a partir do trabalho nos ensaios".
"Este processo de trabalho está patente no espetáculo", acrescentou.
Sem espaço próprio, o grupo Os Possessos ensaiou no espaço cedido pelos Artistas Unidos e, depois das representações na Politécnica, conta fazer uma digressão nacional.
No dia da estreia, sexta-feira, no espaço da Politécnica é também inaugurada uma exposição de pintura de Pedro Chorão.
Sobre esta mostra, Jorge Silva Melo, diretor dos Artistas Unidos, afirma, em comunicado: "Como se nada de opaco alguma vez pudesse afastar-nos do sol, tudo é translúcido, transparente, o instante é supremo, luminoso, mesmo quando é cinzento o quadro, mesmo quando se obscurece o horizonte, não há nunca noite em Pedro Chorão, nunca a luz se vai...".