Palhaço reformado inconformado com esquecimento do circo

Um palhaço reformado cansado de ver o circo "marginalizado" e "esquecido" enviou ao Governo um projecto para a criação de um Museu de Circo Itinerante, mas desde Abril que aguarda uma resposta do Ministério da Cultura.

Agência LUSA /

A lutar há vários anos pela dignificação do circo, Américo Cardinalli quer avançar com este projecto pioneiro em Portugal, que permitirá levar a história do circo a todo o país, principalmente aos mais desfavorecidos.

"O Museu de Circo itinerante será de âmbito histórico-cultural e exibirá a história da arte circense e a sua evolução nos dois últimos séculos", contou à Agência Lusa Américo Cardinalli, 61 anos.

Nascido numa família de palhaços, Américo Cardinalli entrou na profissão aos 12 anos de idade e só a abandonou, por problemas de saúde, aos 52.

"Foi com muita dor que tive de deixar a profissão", lamentou o artista, que actuou em vários países, nomeadamente Rússia e Itália.

Apesar de estar retirado da profissão há quase dez anos, Américo Cardinalli continua a organizar espectáculos para "não morrer de fome" e para "promover o circo", uma arte que considera marginalizada.

O palhaço quer transmitir o conhecimento que adquiriu ao longo da sua carreira e divulgar o "rico património do circo" às crianças através do museu, contando para isso com o apoio de vários artistas e empresas.

No entanto, "era necessário o apoio do Governo para este projecto", adiantou Américo Cardinalli, que há 20 anos estuda a história do circo, o que lhe permite afirmar que "foi a primeira arte a existir no mundo".

"O apoio financeiro é essencial para podermos levar este projecto às escolas, onde as crianças não teriam de pagar nada", sustentou.

Para o artista, a criação do museu do circo também iria preencher uma lacuna, uma vez que existem museus deste tipo em vários países, mas não em Portugal.

Para avançar com o projecto, a organização Américo Cardinali dispõe de colaboradores que farão a recolha dos elementos necessários à valorização do património cultural do museu.

"Sendo as crianças o principal objecto do circo, por tudo quanto ele lhes dá de espectacular e maravilhoso, obviamente é a elas que esta organização Cardinali pretende beneficiar e incentivar em cada localidade", acrescentou.

Todas as crianças em idade escolar poderão visitar o Museu gratuitamente, onde lhes será entregue material didáctico de desenho e trabalhos manuais (papel, aguarelas, lápis de cera e barro de moldagem) para lhes despertar o gosto pela arte.

A visita ao futuro museu incluirá um espectáculo, onde as crianças serão agraciadas com ofertas de pequenos livros com gravuras do circo e dos seus artistas, nomeadamente palhaços, trapezistas, contorcionistas, ilusionistas, etc.

"Não é possível a realização de um tal projecto sem o apoio decisivo dos poderes que de uma forma ou outra poderão estar ligados a este acto de cultura", frisou, adiantando que o museu itinerante ficará entre cinco a 10 dias em cada localidade (cidades, vilas ou aldeias) com mais de 3.000 habitantes.

Para isso, necessitará da boa vontade e colaboração das autarquias para a instalação temporária do museu, e da Electricidade de Portugal (EDP) para a iluminação interior e exterior do recinto de exposição.

"A família Cardinalli, com mais de 80 anos de carreira, quer dignificar cada vez mais a actividade circense, divulgando toda a arte tradicional deste tipo de espectáculo, considerando-o e com razão o maior espectáculo do mundo, cujas raízes se perdem na memória do tempo", frisou.

Contactada pela Agência Lusa, uma fonte do Ministério da Cultura confirmou a entrada do projecto no passado dia 18 de Abril, adiantando que foi encaminhado para o Instituto das Artes, que o reenviou para a secretaria de Estado da Cultura em Maio.

A Lusa tentou obter um esclarecimento da Secretaria de Estado da Cultura, mas não foi possível em tempo útil.

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