Paul Auster apresenta novo filme em Lisboa
O escritor norte-americano Paul Auster fez um filme sobre um romancista que vive a história que está a escrever, em "A vida interior de Martin Frost", mas rejeita qualquer ideia de que seja autobiográfico.
"É uma história sobre um homem que escreve uma história sobre um homem que escreve uma história", resumiu Paul Auster em entrevista à agência Lusa, por ocasião da apresentação do filme em Lisboa.
"Tudo o que acontece no filme é a história que ele [Martin Frost] escreve, ele próprio é uma personagem da história e não se sabe o que é ou não real", referiu Paul Auster, que acaba de chegar a Lisboa vindo do Festival de Cinema de San Sebastián, em Espanha, onde foi júri e apresentou o filme.
Em "A vida interior de Martin Frost", Paul Auster recupera duas personagens - Martin Frost e Claire - que entram em "O livro das ilusões", publicado em 2002.
Nesse livro, Martin Frost e Claire eram eles próprios personagens de um filme, pelo que há intrincadas referências e ligações entre o livro que Paul Auster escreveu e o filme que acaba de apresentar.
Paul Auster diz que não se revê em Martin Frost, enquanto escritor que se apaixona por uma mulher que está intimamente ligada ao processo de escrita, mas concorda que, quando escreve um romance, as personagens ganham vida própria.
"Quando estou a escrever um livro, para mim as personagens são completamente reais. Vivo e durmo com elas. E nunca consigo livrar-me delas", disse o autor de "Mr. Vertigo", explicando assim a adopção de personagens para o cinema e a sua inclusão em diferentes romances.
"A vida interior de Martin Frost" custou cerca de 2,5 milhões de euros, foi rodado em Portugal com produção de Paulo Branco e é protagonizado por apenas quatro actores: David Thewlis, Irene Jacob, Michael Imperioli e Sophia Auster, filha do realizador.
Esta é a segunda experiência de Paul Auster como realizador, depois de "Lulu on the Bridge", de 1998.
Auster escreveu ainda o argumento do filme "Smoke" (1995), de Wayne Wang, e co-realizou com este cineasta o filme "Blue in the face" (1995).
Apesar de ser um apaixonado por cinema, por poder contar uma história com técnicas diferentes, Paul Auster considera-se acima de tudo "um escritor que de vez em quando faz filmes".
Apesar de serem artes diferentes, Auster adopta para ambas o mesmo estilo: "manter o essencial e não divagar muito", deixando de fora detalhes desnecessários ou recursos estilísticos que de alguma forma distraem o leitor da história.
"Há muitos detalhes visuais neste filme, mas tentei mantê-lo o mais simples e interessante possível", afirmou Auster.
A estreia de "A vida interior de Martin Frost" coincide ainda com a publicação em Portugal do livro "Viagens no Scriptorium" e numa altura em que Paul Auster tem já terminado um novo romance.
"Chama-se `Man in the dark´, comecei a escrevê-lo durante a fase de pós-produção do filme e termine-o no Verão, mas tinha andado a pensar nele há já algum tempo", revelou Paul Auster.
Actualmente está, como costuma dizer, na fase de depressão depois da escrita de um romance. "Fico com a sensação de não saber o que fazer comigo próprio, porque parece que de repente fico desempregado".
Paul Auster não sabe se irá voltar à realização. "Para já não, porque não tenho qualquer história para um filme", assinalou.
"A vida interior de Martin Frost" estreia-se no dia 11, mas terá duas antestreias esta semana em Lisboa com a presença do escritor.
Paul Auster, 60 anos, é um dos escritores norte-americanos mais apreciados em Portugal, onde tem praticamente toda a sua obra publicada.
É autor de romances como "Mr. Vertigo", "Palácio da Lua", "Música do Acaso", "Leviathan", "Trilogia de Nova Iorque", "Timbuktu" e "O país das últimas coisas", que está a ser adaptado para cinema por Alejandro Chomski.