Paula Rego lembrada como uma das artistas "mais extraordinárias" e "originais"
Poucos minutos depois de noticiado o falecimento de Paula Rego, o presidente da República considerou tratar-se de "uma perda nacional". Já Augusto Santos Silva lamentou a morte da artista, lembrando que cada quadro seu constituiu "um dardo atirado" contra o preconceito, a dominação e a indiferença. Da política à cultura, foram várias as personalidades e as entidades que manifestaram o seu pesar pelo óbito da pintora.
Segundo o presidente da República, deve-se garantir, através de organismos públicos e privados, que uma parte da obra da pintora Paula Rego fica em Portugal.
"A maior homenagem seria podermos garantir, através de intervenções de organismos públicos e privados, que uma parte relevante do legado de Paula Rego ficará em Portugal, país onde não vivia há muito, mas que nunca abandonou", afirmou o chefe de Estado numa mensagem divulgada pela Presidência da República.
Para Marcelo Rebelo de Sousa, a pintura de Paula Rego era "uma figuração convulsa, ao estilo britânico", à qual se juntava "um outro olhar, um outro imaginário, sombrio e opressivo, ou mítico e indomável, uma visão pessoal, naturalmente, mas uma visão portuguesa".
"E todas as aproximações à arte e à literatura universais não ficavam completas sem entendermos aquilo que era especificamente português nos quadros ou nos desenhos, fossem histórias infantis, memórias de juventude, arquétipos, traumas ou nostalgias", considerou.
Através do Twitter, Augusto Santos Silva escreveu: “Paula Rego soube explorar os nossos sonhos, os nossos medos, as nossas histórias, a nossa condição”.
Cada quadro de Paula Rego “é um dardo atirado contra o preconceito, a dominação, a indiferença”.
Paula Rego soube explorar os nossos sonhos, os nossos medos, as nossas histórias, a nossa condição. Cada quadro seu é um dardo atirado contra o preconceito, a dominação, a indiferença. Muito, muito obrigado, Paula Rego!
— Augusto Santos Silva (@ASantosSilvaPAR) June 8, 2022
Num comunicado, o primeiro-ministro lamentou a morte da pintora portuguesa e salientou que Paula Rego “era uma artista de qualidade excecional, cuja obra alcançou um grande reconhecimento internacional”.
“As suas pinturas, desenhos e gravuras encerram imagens poderosas que ficarão sempre connosco e com as gerações por vir. Aos seus familiares e amigos, o primeiro-ministro apresenta as mais sentidas condolências”, refere-se no mesmo texto.
Paula Rego nasceu “durante a ditadura salazarista” e “fez a sua formação artística em Londres, onde residiu grande parte da vida, mantendo sempre intacta a ligação a Portugal”.
“A sua obra alimenta-se de referências e memórias portuguesas, como os contos populares ou a literatura de Eça de Queirós, e Paula Rego foi uma artista atenta à nossa realidade social. Autora de um universo figurativo singular, as suas obras não se parecem com mais nada do que com Paula Rego”, acrescenta o Gabinete do primeiro-ministro.
Numa nota de pesar, Pedro Adão e Silva manifesta "profundo pesar pelo falecimento de Paula Rego e presta a sua homenagem à artista, destacando a qualidade maior da sua obra, tanto no plano nacional quanto internacional”.
O ministro recordou a ida da artista para Londres, onde viveu “desde muito jovem”, afirmando que a pintora “construiu um percurso singular nas artes plásticas, em que a forte ligação à experiência portuguesa se reflete reiteradamente no seu trabalho”.
“Artista da metáfora e do real, explorou o humano com múltiplas ressonâncias sociais, psicológicas e existenciais. Foi uma artista fortemente comprometida com as grandes causas do seu tempo”, acrescentou.
“Paula Rego desempenhou um papel fundamental na internacionalização da cultura portuguesa”, salientou o ministro, referindo que a artista “deixou como particular legado ao seu país a Casa das Histórias, em Cascais”.
Para além de várias personalidades, também várias instituições e entidades ligadas ao setor da Cultura, nacional e internacional, lamentaram o falecimento da aclamada artista portuguesa.
“O Centro Nacional de Cultura manifesta o grande desgosto pelo falecimento da sua sócia efetiva, hoje ocorrido. Apresentamos sentidas condolências à família e amigos”, lê-se numa nota publicada no ‘site’ do CNC.
De acordo com o CNC, Paula Rego era “uma das mais aclamadas e premiadas artistas portuguesas a nível internacional”.
Também a Fundação EDP, descreveu a pintora como “criadora de uma obra poderosíssima, cheia de originalidade e vigor”.
“Criadora de uma obra poderosíssima, cheia de originalidade e vigor, Paula Rego fez da sua memória pessoal e da nossa memória coletiva um impulso renovado para a sua arte de contadora de histórias. Aliando uma mestria técnica a uma imaginação indomável e a uma liberdade insubmissa, na sua obra estão o nosso passado e o nosso futuro”, lê-se na nota divulgada.
Paula Rego é “a artista portuguesa contemporânea que alcançou maior reconhecimento, prestígio e consagração internacionais”, sublinha a Fundação EDP, que manteve com a “grande pintora” uma “relação de proximidade e colaboração”, afirma que, “perante as suas pinturas, desenhos e gravuras, paramos para ouvir as histórias que os humanos e os animais nos contam”.
Serralves, no Porto, lembrou as duas exposições maiores que acolheu da artista: a antológica de 2004, no Museu de Arte Contemporânea, e a “O Grito da Imaginação”, na Casa, entre 2019 e 2020, ambas vistas por centenas de milhares de visitantes. A fundação presidida por Ana Pinho salientou que Paula Rego era hábil “em casar aparentes opostos, nomeadamente a infância e a crueldade, as crianças e a perversidade, o mundo feminino e a força, o patriarcado e a debilidade”.
“Os excessos, abusos e truculência (a que são submetidas – mas que também conseguem infligir – crianças e mulheres) podem estar associados na sua obra ao reconhecimento imediato (permitido pela figuração), mas a sofisticação e a radicalidade dos seus trabalhos residem na complexidade moral com que constantemente nos confrontam”, realçou Serralves, em comunicado.
A fundação remata que “em tempos inclinados a polarizações e entrincheiramentos, Paula Rego recorda para sempre que nada é simples e imediato”.
A instituição exprime ainda “orgulho pela recente aquisição da sua icónica pintura ‘O Anjo´” (1998), que em fevereiro deste ano reforçou a coleção do Centro de Arte Moderna (CAM), a par de “O Banho Turco” (1960), "tornando a Gulbenkian na instituição privada com o maior e o mais significativo acervo da artista", constituído por 37 obras, entre pintura, desenho e gravura.
Na altura, Paula Rego exprimiu a sua “grande felicidade” por saber que dois dos seus quadros mais importantes “iriam viver na Gulbenkian”, recordou a fundação no comunicado enviado à Lusa.
“Uma gratidão que fazia sempre questão de sublinhar desde que foi bolseira da fundação”, acrescenta.
O conselho de administração aponta ainda que a morte de Paula Rego ocorre “numa etapa decisiva da sua consagração internacional, após ter exposto com enorme êxito mediático em Paris”, no museu L’Orangerie, em 2018, em Londres, na Tate Britain, em 2021, e no Kunstmuseum, de Haia.
"Foi uma das artistas mais originais e amplamente aclamadas do nosso tempo. Durante sete décadas, ela reinventou a pintura figurativa e a forma como as mulheres são representadas", lê-se num comunicado do Museu Picasso de Málaga, onde está exposta, desde 26 de abril, “uma grande retrospetiva” da obra da pintora portuguesa, que já não esteve na inauguração por causa do "delicado estado de saúde".
Na mesma nota, o museu, que manifesta o seu pesar pela morte de Paula Rego, destacou que a pintora "procurou novas e diferentes formas de contar histórias com os seus quadros" e que "as suas obras estão enraizadas na sua experiência pessoal, ao mesmo tempo que se ligam ao que está a acontecer no mundo".
O museu lembrou, no mesmo texto, as "numerosas exposições retrospetivas" de Paula Rego, que antecederam a que está em Málaga, destacando as da Tate Liverpool (Reino Unido) em 1997; do Museu Nacional Centro de Arte Rainha Sofia, em Madrid, em 2007; do Museu de Arte Contemporânea de Monterrey e da Pinacoteca de São Paulo, em 2010-11, e do Museu de L'Orangerie, em Paris, 2018.
A exposição que está em Málaga é organizada pela Tate Britain (Reino Unido) em colaboração com o Kunstmuseum Den Haag (Haia) e o Museu Picasso de Málaga e tem a curadoria de Elena Crippa, curadora de Arte Moderna e Contemporânea da Tate Britain, juntamente com Zuzana Flašková, curadora assistente daquele museu britânico.
Antes de Málaga, a exposição já esteve em Londres, no Reino Unido, e em Haia, nos Países Baixos.
A exposição cobre cinquenta anos da carreira de Paula Rego e integra mais de oitenta obras da artista portuguesa, incluindo colagens, pinturas, pastéis de grande formato, desenhos e gravuras, abrangendo desde o seu trabalho nos anos 1960 até “às cenas ricamente estruturadas e estratificadas” das duas primeiras décadas deste século.
Já a diretora da rede de museus britânicos Tate, Maria Balshaw, recordou a pintora portuguesa Paula Rego como "uma artista intransigente de poder imaginativo extraordinário”.
“Paula Rego foi uma figura incrivelmente importante para a Tate”, disse a responsável por esta rede de instituições públicas britânicas de arte, numa declaração à Agência Lusa, elogiando a forma como a artista "revolucionou de forma única a maneira como as vidas e as histórias das mulheres são representadas".
"Ao longo da carreira, ela ganhou enorme respeito de muitos colegas artistas e críticos de arte, liderando o caminho em dar uma forma poderosa na denúncia de injustiças”, sublinhou.
Além de uma grande exposição retrospetiva em 2021, no Tate Britain, em Londres, a galeria Tate possui várias obras de Paula Rego na coleção permanente, tendo Balshaw confessado a admiração pessoal por aquela que considera uma “pioneira".
“Vamos garantir que as gerações futuras tenham a oportunidade de sentir a força implacável deste trabalho, e sejam tão tocadas por ele como tantas o foram ao longo das décadas”, prometeu.
O museu National Gallery, que teve um papel fundamental no lançamento da carreira da pintora no Reino Unido quando a nomeou a primeira Artista Associada, entre 1989 e 1991, também manifestou o pesar pela morte da “amiga” na rede social Twitter.
We are saddened to learn of the death of Paula Rego. She was our Associate Artist between 1989 and 1991, and a friend of the Gallery.
— National Gallery (@NationalGallery) June 8, 2022
Our thoughts are with her family. pic.twitter.com/t7hU7Ywnk6
A Royal Academy of Arts, da qual Paula Rego era membro, escreveu também no Twitter que era "uma artista incrivelmente talentosa e versátil e [a morte] é uma grande perda para o mundo da arte".
A galeria Victoria Miro, que representa a artista desde 2020, e uma das primeiras a anunciar a morte da artista, considera que “a importância de Rego transcende as artes visuais” e é uma "ícone feminista”.
"Artista de visão intransigente, Paula Rego trouxe uma profunda perspetiva psicológica e poder imaginativo ao género da arte figurativa, e a honestidade da sua visão foi sustentada por meio de narrativas, através de motivos e ao longo de décadas”, refere num comunicado enviado à Lusa.
Para a galeria, “ela era uma contadora de histórias inigualável e a sua arte destaca-se como uma exploração destemida das relações humanas e das complexidades da experiência humana”.
A Universidade de Cambridge, que em 2013 atribuiu à artista um Doutoramento Honoris Causa, referiu hoje a obra "inspiradora para todos os jovens artistas pela meticulosidade e rigor na combinação de muitas influências e estilos diferentes”.
Nascida a 26 de janeiro de 1935, em Lisboa, foi galardoada, entre outros, com o Prémio Turner em 1989, e o Grande Prémio Amadeo de Souza-Cardoso em 2013, além de ter sido distinguida com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada em 2004. Em 2010, recebeu da Rainha Isabel II a Ordem do Império Britânico com o grau de Oficial, pela sua contribuição para as artes.
Em 2019, recebeu a Medalha de Mérito Cultural do Governo de Portugal.