Paula Rego revê toda uma vida no Rainha Sofia

"É como olhar para o que se passou na minha vida" - assim sintetiza Paula Rego, em declarações à agência Lusa, a exposição retrospectiva da sua obra que a partir de hoje está patente no Museu Rainha Sofia, em Madrid, e que é inaugurada oficialmente à noite.

© 2007 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A. /

A merecer amplo destaque mediático, tanto em Portugal como em Espanha, a exposição, que estará patente até 30 de Dezembro - e que depois segue para Washington - é a maior e mais completa da obra da pintora mostrada em Espanha.

"Às vezes gostei (da minha vida), outras vezes não. Houve coisas boas e más", assinalou.

Com o apoio de Marco Livingston, comissário da exposição, e a colaboração das colecções privadas a que pertence grande parte das obras, a mostra de 200 trabalhos traça os percursos essenciais dos 55 anos de trabalho de Paula Rego, desde as suas primeiras obras (1952) até recentemente.

A única ausência é o período entre finais dos anos 60 e início da década de 80, quando circunstâncias pessoais - nomeadamente a morte do pai - a levaram a regressar temporariamente a Portugal.

A própria artista admite não gostar dos seus trabalhos desse período que, como referiu à Lusa Marco Livingston, o comissário da exposição, representam um desvio do desenvolvimento progressivo de toda a obra da artista, radicada em Londres.

Foi um período mais difícil numa obra constantemente marcada pela dureza, pelas histórias, pelas posições políticas, pelos retratos sociais e pelo humanismo de temas como a luta pela igualdade de género, o aborto e a infância.

"Somos todos meninos. Agora é-se menino de maneira diferente de antigamente. Agora brinca-se mais à frente da televisão. Mas continuam a ser meninos, mesmo quando crescem", afirmou.

"Daí os meus bonecos", observou.

São retratos onde a "indignação" por alguns temas, como o aborto em Portugal, mais recentemente, ou a ditadura, na décadas de 60, marcou lugar destacado.

"Há coisas que me indignam, como o aborto em Portugal. Coisas que me indignam politicamente e socialmente me estimulam. Não consigo mudar políticas, mas poder fazer um boneco talvez mude as ideias de alguns. Isso é muito importante", afirmou.

"Sobretudo - frisou - no que toca às políticas das mulheres que, muitas vezes, passam muito mau bocado. É uma coisa horrível".

Mais do que um percurso cronológico, a exposição demonstra igualmente a complexidade do trabalho de Paula Rego, que Livingston compara "ao dos grandes mestres", onde o recurso ao desenho em quadriculado e aos modelos vivos a distinguem dos seus contemporâneos.

"Pinto por hábito. É como o fumar, já pinto por hábito", disse, justificando o facto de continuar a dedicar oito horas por dia, cinco ou seis dias por semana, à pintura.

A exposição assume especial importância porque ajudará, como explicaram todos os responsáveis pela iniciativa, a promover a obra de Paula Rego em Espanha, onde é relativamente desconhecida, e, por inerência, a cultura portuguesa.

"Ajudará certamente a torná-la mais conhecida e será um impulso final e definitivo a esta artista no nosso país", afirmou o ministro da Cultura espanhol, César Molina, a quem Paula Rego conduziu hoje numa visita privada à exposição.

Da mostra fazem parte cerca de 80 pinturas - incluindo os monumentais quadros pintados a pastel, o material preferido da pintora desde 1994 - 60 desenhos e 60 gravuras e litografias.

"Conheço a Paula Rego há 20 anos e, a preparar esta exposição e o catálogo, entrevistei-a várias vezes. Quando estava a transcrever as entrevistas notei que há sempre muito riso, muita alegria", contou Marco Livingston.

"É divertida, sem presunção, acredita muito em si própria qualificou - mas não tem um ego difícil, está sempre atenta ao outro. Outros artistas falam sempre de si próprios e ela não, quer observar e conhecer os outros, porque isso é importante para o seu trabalho".

O "site" do Museu Nacional Centro de Arte Rainha Sofia - um dos mais importantes museus de arte moderna de Espanha - apresenta Paula Rego, nascida em Lisboa, 1935, e formada na Slade School of Fine Art, em Londres, onde fixou residência, como "uma das pintoras figurativas mais relevantes da cena internacional".

A mostra em si divide-se em quatro grandes períodos - 1953/66, 1981/93, 1993/2000, e de 2000 até 2006 - que é usada tanto na divisão das salas interiores, como no catálogo da exposição.

Os trabalhos, alguns dos quais nunca antes mostrados, incluem desenhos e ensaios de algumas obras marcantes, entre elas, como explicou o comissário, "referências a Espanha".

A própria Paula Rego recorda a primeira vez que visitou Espanha, no início da década de 50, altura em que pela primeira vez visitou o Museu do Prado.

"Na altura estava tudo num estado lastimoso. Mas mesmo assim as imagens foram tão fortes que ainda hoje vivem comigo", disse, confessando-se muito honrada por estar exposta "por baixo de Picasso" e de obras como a famosa Guernica.

Para Lúcia Ybarra, coordenadora da exposição, é uma mostra que permite retratar "o mundo fascinante de histórias e de personagens que é a obra de Paula Rego".

"É como abrir um baú de recordações. Vai permitir que se conheça melhor a obra de Paula Rego e que se colmate a dívida que tínhamos para com ela", afirmou.

A exposição seguirá no início do ano para o Museum of Women in the Arts, em Washington, onde estará patente entre Fevereiro e Maio de 2008.


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