Paula Sousa, mulher e pianista no jazz, edita o primeiro álbum a solo
**Sílvia Borges da Silva (Texto) e José Goulão (Fotos)**
Lisboa, 31 Jul (Lusa) - Paula Sousa, uma das raras pianistas de jazz em Portugal, acaba de lançar o álbum "Valsa para Terri", o primeiro em nome próprio em 46 anos de uma carreira que diz estar, afinal, agora a começar.
"Valsa para Terri", que será apresentado sábado no Convento dos Capuchos, em Almada, concentra a identidade musical de Paula Sousa, na qual convivem Beethoven, David Bowie, Thelonious Monk e Bill Evans.
"Eu procuro pôr nos temas o que eu sou, uma expressão minha, e é natural que apareça um bocado de expressão pop, de clássica", disse Paula Sousa em entrevista à agência Lusa.
É natural, por isso, que no álbum surjam originais como "Valsa para Terri" e "Less tension, please" ao lado de versões como "I fall in love too easily" e "Life on Mars", de David Bowie.
Nascida em Viana do Castelo, Paula Sousa tem formação clássica em piano e um longo percurso musical feito na cena pop rock dos anos 1980 e 1990 do Porto e que desembocou no jazz no virar do século.
"Aos seis anos fiquei completamente siderada com o piano", disse Paula Sousa, recordando que só conseguiu convencer o pai a ter aulas depois de lhe ter rasgado, numa paciente rotina diária, o jornal Primeiro de Janeiro que gostava de ler à hora do almoço.
A estreia em palcos deu-se aos oito anos, no Teatro Sá de Miranda, em Viana do Castelo, e das lições particulares depressa chegou ao conservatório no Porto, mas desistiu a um mês de terminar o curso, num jogo de forças com a mãe.
Quando se deu o 25 de Abril de 1974, já Paula Sousa tinha feito quatro anos do curso de Economia, em paralelo com o piano, tinha-se casado e divorciado: "Foi um momento de dizer não a certas coisas".
Nasceu o seu único filho, Sérgio, esteve oito anos sem tocar piano, passou pelo grupo de música tradicional Vai de Roda e quando reata com as teclas é já à frente dos sintetizadores, embrenhada no pop rock do Porto.
Passou pelos Stick, anteriores aos Trabalhadores do Comércio, pelos Ban, pelos Repórter Estrábico, teve um duo com o percussionista Rui Júnior e esteve na génese das Três Tristes Tigres.
"Nunca escolhi um projecto a pensar se iria ou não funcionar muito bem em termos comerciais. As minhas opções foram de acordo com aquilo que me apetecia fazer no momento", sublinhou Paula Sousa.
Mas "profundamente decepcionada com o meio" musical do Porto, Paula Sousa começou a trabalhar sozinha e é nessa altura, em finais dos anos 1990, que o filho, que estudava contrabaixo, a despertou para o jazz. Ambos mudam-se para Lisboa para um outro recomeço.
Em 2002, Paula Sousa rumou a Boston, nos Estados Unidos, para a Berklee College of Music, uma das mais reputadas escola de jazz do mundo, onde estava já o seu filho a estudar. Dois anos depois, licenciou-se em jazz, precisamente no mesmo ano em que o filho terminou o curso.
"Fiz sacrifícios. [O dinheiro d´]A minha casa, que vendi no Porto, ficou lá. Fiz a minha festa de graduação quinze dias depois dos meus 50 anos. Eu tenho muitos amigos a querem reformar-se e eu não quero. Eu quero tocar até ao fim dos meus dias", disse a pianista.
De regresso a Lisboa, arriscou-se a assumir os temas originais que compunha e decidiu gravar o primeiro álbum, que dedicou à Terri, uma cadela que habitava o seu pequeno apartamento em Lisboa, onde estão hoje as cadelas Zeta e Donna Lee, a gata Lilás e o enorme piano de cauda.
Paula Sousa não renega os tempos em que tocou em bares de hotéis, "um trabalho muito ingrato e invisível" que ajudou a equilibrar as suas contas, mas hoje, com 46 anos de carreira, reparte o tempo entre o ensino e os concertos, acompanhada por um punhado de músicos muito mais novos.
"Comecei a tocar jazz depois deles e gosto! Porque há ali toda uma energia de querer evoluir", exclamou Paula Sousa.
"Só tenho pena - confessou - de não ter tido um percurso de vida menos difícil".
SS.