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Peça "2062" escrita por adolescentes e dirigida por João Branco é "um murro no estômago" de realidade

Peça "2062" escrita por adolescentes e dirigida por João Branco é "um murro no estômago" de realidade

O projeto K Cena, do Teatro Viriato, em Viseu, leva a palco "2062", uma peça escrita por adolescentes, encenada por João Branco, que fala de um futuro sem emoções, como um "verdadeiro murro no estômago", que afinal é presente.

Lusa /
Projeto do Teatro Viriato

O projeto teve início em outubro do ano passado, será estreado no próximo dia 17 e, à partida, os participantes traziam apenas "sensações de como a vida acontece". Agora, depois de trabalharem a obra que conceberam com João Branco, confessam terem adquirido "consciência da atualidade e do futuro", com o teatro a revelar-se "uma forma de ter coragem".

"2062" é um original do projeto K Cena, que envolve 14 jovens entre os 15 e 26 anos, residentes em Viseu, e teve como inspiração a obra "1984", de George Orwell, inclusive o título.

"Tal como George Orwell escreveu em 1948 sobre 1984, também estes jovens escreveram em 2026 sobre 2062", indicou o encenador João Branco, autor da ideia, que quis "muito desenvolvê-la no Teatro Viriato no projeto K Cena".

O texto é o resultado de cartas que cada um dos adolescentes escreveu em 2026, e que são abertas em 2062, ano em que decorre a peça e em que as emoções já não fazem parte do dia-a-dia, nem o contacto físico é permitido.

"Não sentimos, não lembramos, não desejamos. Funcionamos. Bem-vindos a 2062", um ano em que "o amor, a saudade, a liberdade, o pensamento deixam de ser utilizados e é o algoritmo que limita", ouviu hoje a agência Lusa, no decorrer de um ensaio.

A peça não se resume aos textos escritos pelos também atores. Tem "partes de um poema do cabo-verdiano Daniel Filipe, escrito na década de 1970", o autor de "A Invenção do Amor" e "Pátria, Lugar de Exílio", e há ainda uma componente audiovisual, cerca de dois terços, que são fruto de imagens realizadas junto do público no dia de estreia.

No final do ensaio, os protagonistas partilharam com a agência Lusa ideias, emoções e sentimentos que esta peça despertou e provocou em todos os intervenientes, "um verdadeiro murro no estômago" a que não ficará imune quem assistir, sejam jovens ou adultos.

"Nós começámos o projeto [em outubro de 2025] e vínhamos com sensações de como as relações e a vida acontece e, hoje, depois de trabalharmos esta peça com o João [Branco] temos consciência da atualidade e do futuro que estamos a construir", assumiram de uma forma unânime.

Maria Clara, com 17 anos, deu o seu exemplo, para mostrar como as relações entre as pessoas mudam, tendo em conta a sua irmã mais nova, de 07 anos que "já não salta à corda nem brinca com jogos de tabuleiro, é só telemóvel; está cada uma em seu ecrã".

"A falta de amor já existe. Não é o futuro, é já hoje", acrescentou Maria Clara que admitiu que, "se não tivesse entrado neste projeto, não teria esta consciência" da realidade de hoje em dia.

Uma afirmação corroborada pelos companheiros de palco que ganharam consciência de que, atualmente, "é tudo muito superficial, as palavras não têm emoção, sentimento; hoje as pessoas dizem que amam e odeiam de forma igual, sem qualquer emoção".

E tal como no decorrer do espetáculo, "em que, do início ao fim, a tendência é piorar", revelam, também na vida real, "isto só vai piorar, quer com a inteligência artificial, quer com esta ausência de atenção, de escuta, de carinho".

"Tenho medo da peça que criámos. Tenho medo que esta seja a realidade do futuro que já está aí", admitiu André Fiúza.

Numa sociedade em que "ninguém pára, ninguém tem tempo para pensar, para escutar, as relações ficam sem emoções, não nos permitimos sentir", afirmam à ves. "Passamos por alguém na rua e perguntamos se está tudo bem, mas nem paramos para ouvir a resposta", admitem.

"Até os carros são todos da mesma cor. É tudo preto, branco e cinzento. Hoje os carros perderam cor, estão todos iguais. E nós também estamos a perder a cor", soltou Pereira.

Numa partilha intensa e ordeira com a agência Lusa, as ideias e as emoções foram-se complementando umas às outras, cada um no seu sentir, mas todos com o mesmo foco e a mesma vontade de "fazer diferente em casa, na escola e na vida" de cada um.

"Se queremos ser nós a mudar, temos de ser nós a quebrar o ciclo. Se queres a mudança, tens de ser tu, temos de ser nós, a mudar", reagiu Gabriela Santos.

"Cabe-nos agora a nós, que ganhámos esta consciência, mudar. Queremos muito que os estudantes que vão assistir [à peça], assim como os nossos familiares e o público em geral sintam este murro no estômago, percebam que todos nós estamos a cometer erros, sem culpa, porque é o ciclo da vida que está a ir nesse sentido. Mas nós temos de fazer diferente", assumiram entre uns e outros.

A consciência chegou "muito pela forma como o João [Branco] trabalhou" com os intérpretes. "O maior impacto que sofremos foi na forma como o João lidou connosco, nos ouviu e escutou. Isso fez a diferença", assumiram.

Para o encenador, este trabalho de criação com os mais novos e de perceção da sua realidade é um dos que "mais felicidade dá". E se "há encenadores, professores, adultos, que não gostam de trabalhar com adolescentes, esta é a faixa etária preferida" de João Branco.

"É uma altura da vida difícil para eles. São as alterações do corpo, as hormonas, e é uma altura em que ninguém tem paciência para os ouvir, nem os amigos. Então vão criando um muro à sua volta e vão-se isolando. Hoje, isolam-se nas tecnologias e deixam de se relacionar, e eu gosto de trabalhar com eles, de os ouvir, eles são ótimos", afirmou.

José Duarte, um dos jovens participantes, defendeu que "a arte também tem este poder, o de ser voz no mundo, e o teatro é uma forma de ter coragem, de ter essa voz sem medo de a projetar e fazer ouvir, a arte também é isso", garantiu.

Com coordenação pedagógica e direção artística de João Branco, sobem ao palco os cocriadores e intérpretes Ana Lúcia Duarte, André Fiúza, Bruna Augusto, Carlos Pereira, Diana Silva, Gabriela Santos, Helena Silva, Joaquim Lopes, José Duarte, Lucas Madeira, Madalena Alves, Madalena Rocha, Maria Inês Sousa e Maria Clara Câmara.

Desenho e operação de luz são de Filipe Jesus e desenho e operação de som, de Nelson Almeida.

A peça, integrada na programação da Rede de Teatros e Cineteatros Portugueses, tem produção do Teatro Viriato.

A estreia pública acontece no dia 17, sexta-feira, às 19:00. Nos dias 15 e 16, há sessões para alunos do 3.º ciclo, do ensino secundário e superior, assim como "para outros grupos organizados".

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