Peça que fala de revolução, juventude e Porto estreia no edifício Axa

Porto, 03 set (Lusa) - "A revolução dos que não sabem dizer nós" é o titula da peça que o Teatro do Bolhão estreia esta quarta-feira no edifício Axa, no Porto, e que evoca memórias da cidade e a juventude, para falar de revolução.

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O título, explicou à Lusa Zeferino Mota, o responsável pelo texto e pela dramaturgia, surgiu a partir de uma frase no livro "Maio de 68 explicado a Nicolas Sarkozy", de dois jornalistas franceses.

"Por um lado, há um desejo de revolução, mas, por outro lado, há talvez uma dificuldade de encontrar pontos comuns, seja em termos ideológicos ou a outros níveis que permitam atuar", afirmou.

Para tentar elaborar uma peça que chegasse à geração do "eu", Zeferino Mota optou por "um trabalho de pesquisa sobretudo a partir do século XIX, tendo como centro a cidade do Porto, sobre movimentos revolucionários que aconteceram aqui ou o eco de outros e a sua repercussão em Portugal", explicou, afirmando que o resultado " é uma espécie de viagem destes últimos 200 anos".

Um discorrer a partir de movimentos de revolta onde está também presente "a própria mutação desta ideia de revolução, que está muito ligada à ideia de violência no início de século XX e que já é bem diferente quando chegamos ao Maio de 68, ou da Revolução dos Cravos".

Como elemento de unidade de todo espetáculo, explica o dramaturgo, "está a questão da juventude". "Todas as vozes que estão ali presentes são vozes de jovens em momentos históricos e que podem ser o da greve dos pescadores de Matosinhos em 1973 e a recolha de víveres por parte dos estudantes, pode ser as lutas do liberalismo".

Interrogado se para os jovens atores é difícil perceber o que motivou a luta de gerações anteriores, Zeferino Mota lembra a jovem atriz que veio ter com ele, dizendo-lhe "que era difícil compreender o facto de as pessoas sacrificarem a sua vida por razões ideológicas, por exemplo vivendo na clandestinidade".

"Ela podia perceber racionalmente mas sobre o ponto de vista emocional era muito complicado sentir essas motivações", acrescenta.

O contexto da história da cidade também lhe pareceu importante para dar uma maior proximidade aos atores, muito jovens, mas Zeferino Mota nota que "a ideia não é recriar, é perceber que ecos é que este discurso tem no nosso corpo hoje, com todas as circunstâncias em que estamos inseridos, independentemente da idade ou da geração, no fundo somos viajantes do mesmo tempo".

O espetáculo tem uma forte componente musical, com músicas que vão do "Le Deserteur", de Boris Vian, à "Canção do soldado no Cerco do Porto" de Adriano Correia de Oliveira e Urbano Tavares Rodrigues, ou a "Ronda do soldadinho", de José Mário Branco.

Com entrada gratuita, o espetáculo tem um elenco de seis atores, encenação de João Paulo Costa e direção musical de Ernesto Coelho. Vai estar em cena de quarta a domingo até ao dia 22 de setembro.

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