Peça "Turismo" de Tiago Correia regressa a palco no Porto de 08 a 10 de outubro

Peça "Turismo" de Tiago Correia regressa a palco no Porto de 08 a 10 de outubro

"Turismo", uma criação de Tiago Correia para a companhia A Turma, que aborda o fenómeno turístico e as consequências num povo e sua cidade, regressa a cena no Porto, no dia 08 de outubro, pondo fim ao confinamento da pandemia.

Lusa / Adicionar como fonte informativa

Estreada no início de 2020, no auditório Campo Alegre do Teatro Municipal do Porto, pouco antes da declaração da pandemia da covid-19, a peça "Turismo" é reposta em cena, na cidade do Porto, mas agora no palco do Teatro Helena Sá e Costa, entre os dias 08 e 10 de outubro. Sempre às 21:00 e, no domingo, dia 10, às 17:00.

Em entrevista à agência Lusa, o dramaturgo Tiago Correia explica que sentiu "necessidade" de voltar a repor a peça, não só porque em 2020 teve uma "existência muito curta", com uma "grande adesão de público", mas também porque apesar da pandemia, a verdade é que, sobre a temática do turismo, "pouco mudou" e o assunto mantém-se "atual" e "pertinente".

Para Tiago Correia, repor a peça é "uma prova da vitalidade" da obra.

"Voltar a fazer este espetáculo agora serve também para dizer que está vivo. É uma prova da vitalidade" da peça.

O dramaturgo refere que a equipa sentiu, nas apresentações, no Porto, que havia uma necessidade de se abordar a temática da "turistificação" e "gentrificação".

"Na forma como o público aderiu à peça, na forma como o público reagiu à peça e na forma como o espetáculo criou um debate e dividiu posicionamentos dos espectadores relativamente às personagens e a quem tinha razão. Isso foi muito interessante, porque era exatamente esse o objetivo do espetáculo", explica à Lusa.

A reposição da peça resulta da necessidade de regressar à temática turística e às metamorfoses que provoca nas cidades, mas serve também para sublinhar que nem com a pandemia a situação mudou, e a "especulação imobiliária continua".

"Os preços não diminuíram, os despejos só temporariamente é que foram impedidos, a especulação imobiliária continua, o mercado imobiliário está só numa espécie de suspensão, à espera que tudo volte a ser como era. Sentimos que ainda é uma questão pertinente", disse o dramaturgo à Lusa.

Para Tiago Correia voltar a levar a palco "Turismo" é também uma nova oportunidade para refletir sobre as questões de identidade das cidades "obcecadas pelo fenómeno turístico e sobre os seus efeitos colaterais na vida dos seus habitantes".

"Uma temática complexa, que a crise pandémica não veio mitigar. Sem julgamentos, sem bons ou maus", prossegue o também encenador, director artístico do projecto A Turma, professor de interpretação e músico.

Tiago Correia contou que durante a fase de pesquisa e criação da peça, havia um lado seu que achava que "Turismo" podia acabar com a pandemia, ou seja, que o "próprio espetáculo podia acabar assim com uma pandemia", encontrar o seu final numa pandemia.

Pensou, por exemplo, na "Morte em Veneza", novela de Thomas Mann que também foi um filme de Luchino Visconti, em que "o comércio local e o poder local tentaram omitir" a existência de uma pandemia, na cidade italiana, aos turistas, para evitarem que o turismo desaparecesse.

"Era um outro possível final [para a obra] e, na altura, era ficção científica", disse agora Tiago Correia à Lusa.

Uma jovem de "vinte e poucos anos" (Inês Curado) que pretende ser atriz e arrenda uma casa no centro da cidade, na tentativa de cumprir o seu sonho de artista, um polícia (José Eduardo Silva) de quarenta e poucos anos, que vive com a mãe (Romi Soares), com mais de 70 anos, e que são os proprietários da casa onde a jovem reside, são as personagens centrais da trama.

Um jovem turista francês e fotógrafo (André Júlio Teixeira), na casa dos 30 anos, e uma outra mulher (Claudia Lázaro), com cerca de 40 anos, vítima dum despejo criminoso que viverá na rua, completam o núcleo das seis personagens da peça, cuja ação decorre ao longo de três dias e três noites, numa "cidade da Europa do sul".

A folha de sala da peça "Turismo" tinha um texto de Regina Guimarães, que nunca chegou a ser distribuído. Escrito para ser integrado na folha de sala, continha uma nota de rodapé no qual a escritora criticava a noção de `cidade líquida` de Paulo Cunha e Silva, ex-vereador da Cultura do Porto, que morreu em 2015.

A escritora, que acusou a direção do Teatro Municipal do Porto de censura - que por sua vez negou o propósito -, afirmava, nessa nota de rodapé, que o antigo vereador Paulo Cunha e Silva inundava os portuenses "de discursos delirantes acerca da `cidade líquida inspirada em Zygmunt Bauman`, no intuito de legitimar teoricamente as escolhas políticas na sua área de atuação, positivando, por ignorância ou descarada mentira, uma noção que, para o sociólogo inventor do conceito, consubstancia o horror contemporâneo da perda de laços. O erro, propositado ou involuntário de Paulo Cunha nunca foi publicamente denunciado pelos sociólogos da cidade e da sua academia".

A peça, que se desenrola simultaneamente num plano cinematográfico, com realização ao vivo de Francisco Lobo, tem música original de Rui Lima e Sérgio Martins, cenografia de Ana Gormicho, luz de Rui Monteiro e Teresa Antunes, figurinos de Sara Miro e consultoria artística de Regina Guimarães.

O preço dos ingressos é de 12 euros, sujeito a desconto para estudantes e seniores (50%) e desconto para artista (30%).

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